Clube Caiubi de Compositores

Amigos,
Partilho aqui trechos de uma matéria sobre o encaixe perfeito de música e letra em uma composição, que li na revista Língua Portuguesa deste mês.
O assunto é abordado a partir da análise da composição de Carinhoso, levando-nos a pensar nos meandros para se chegar a esse encaixe; e o enfoque é a letra feita depois da música (o que não nos impede de pensar na forma inversa e conversar sobre ambas neste tópico).
Antes de partilhar a matéria, pedi a autorização do autor e a recebi, inclusive para a publicação da matéria toda, mas não aguentei digitar tanto e selecionei alguns trechos. Porém, vale a pena comprar a revista e ler a matéria na íntegra – para quem não conhece, uma excelente publicação disponível nas bancas.
Aí vai:

ENCAIXE PERFEITO

Em
Carinhoso, a letra de Braguinha para a música de Pixinguinha mostra como as restrições da forma propiciam proezas criativas.

LETRA e MÚSICA

Carinhoso é exemplo perfeito de como a letra pode acompanhar de perto a emoção da música, dando a impressão de que foram compostas ao mesmo tempo.
Numa canção, letra e música são canais simultâneos de expressão e se influenciam. A música é abstrata; sugere e produz emoções, mas não diz nada diretamente. A letra tem sentido imediato, descreve ações e pensamentos, expõe ideias, evoca imagens.
É comum que a música sugira uma coisa e a letra diga algo diferente. Isso tanto pode ser recurso expressivo como defeito, incapacidade de expressão do(s) autor(es).
Carinhoso mostra que a dificuldade de fazer letra para música já pronta não é dificuldade técnica de fazer as sílabas poéticas, e sim a de produzir um texto cuja ressonância emotiva esteja de antemão contaminada por elementos externos ao texto. É mais frequente encontrarmos letra e música que se tolerem do que as que se harmonizam.

Uma das tarefas árduas para um poeta é colocar letra numa música já pronta. Tenho comentado aqui a dificuldade e a importância de um escritor trabalhar com formas fixas. Elas lhe impõem restrições, mas essas restrições acabam por obrigá-lo a façanhas de criatividade - se há talento, claro.
Pois bem: não há forma fixa tão complicada quanto a letra de música. Uma coisa é escrever palavras para serem impressas numa página. Outra é escrever frases para serem cantadas em voz alta, num ritmo que não é dado pelo escritor. A música sugere emoções, induz um tipo diferente de recepção. Um poema na página diz só o que suas palavras dizem. Um poema cantado diz o que dizem as palavras, misturado ao que a música nos diz de modo mais indireto mas não menos eficaz.
Carinhoso, de Pixinguinha e Braguinha, é um belo exemplo de letra que se encaixou, sem aparente esforço, numa música preexistente. E foi uma letra submissa à música, criada sem que o letrista pudesse alterar a melodia. Se alguém dissesse que a letra foi feita primeiro, e depois musicada, muita gente acreditaria.
A melodia foi composta por Pixinguinha em 1917 e gravada em forma instrumental em 1928. Em 1936, por sugestão da cantora Heloísa Helena, Braguinha de dispôs a “letrar” a música. [...] Orlando Silva a gravou em 1937, e o resto, até as 200 regravações desde então, é História.
[Olhem que detalhes interessantes:]
[...]
A canção vai se abrindo aos poucos: “Meu coração... Não sei porque...” Duas frase melódicas idênticas, às quais se sucede uma terceira, em melodia ascendente (Bate feliz) e uma quarta se ergue triunfal (Quando te vê!...), recriando a emoção do surgimento da amada. Então, melodia e letra valsam uma sucessão de acordes: “E os meus olhos / ficam sorrindo / e pela rua / vão te seguindo...” Um rodopio de felicidade que se amaina aos poucos quando letra e melodia se recolhem, tímidas, imobilizando-se na constatação grave: “Mas mesmo assim... foges de mim”.
[...] E então o poeta chama, clama, reclama em quatro notas e quatro imperativos ascendentes: “Vem! Vem! Vem! Veeem!...” Seria possível colocar ali uma palavra de quatro sílabas. Braguinha, com simplicidade e nitidez, sentiu a necessidade de um mesmo monossílabo, para corresponder à subida e à insistência da melodia.
[...]
Calado, contemplativo, o poeta permitiu que a melodia arrebatasse suas palavras e libertasse tudo o que tinha para dizer.


(por Bráulio Tavares - compositor, autor de Contando Histórias em Versos)

Compartilhar Twitter

Responder esta

Respostas a este tópico

Esther!
em minhas aulas de voz para teatro eu costumo falar exatamente sobre isto. Mas eu sou um pouco mais... romântica, ou louca, porque eu acho que na verdade tudo isto que acontece e que é descrito neste artigo, é uma "antenação" telepática que acontece entre letrista e compositor, como se Deus juntasse as pontas e eles dois dessem o laço. Eu inclusive dou varios exemplos vivos disto, fazendo meus alunos interpretarem musica e letra re-vivendo esta emoção no corpo. É bárbaro, eles ficam extasiados, e quando começam a ler estes significados sozinhos, é uma viagem. Carinhoso é um dos exemplos mais ricos do meu repertório. Bote isto tudo que ele escreveu em movimento do teu corpo, e veja o que acontece... para mim estes pequenos "milagres" estão ligados ao nosso sistema límbico, responsável pela intuição e instintos.
O Braulio Tavares é um espetáculo... vou comprar a revista, vale a pena ler tudo.
eu a.d.o.r.o! o desafio de colocar letra em musica!
Neste momento eu tenho, na minha vida, a felicidade de ter encontrado um parceiro que "sente" as minhas letras, que também já nascem pra musica dele: o Edu Franco.
E estou tendo a alegria de poder compartilhar estas delicias c/voce, pois faz apenas alguns dias que ficamos amigas aqui, e já tanta coisa acontece em meu coração...
agradecida, querida
que bom te encontrar
Sonya

Responder esta

Sonya, (já) amiga (e já) querida,

Como disse o Ari, seu comentário é realmente uma saborosa viagem, que complementa sensivelmente as palavras do Bráulio.
Essa sensação de músico e poeta antenados é forte pra mim também, e creio que seja a partir desse bom "delírio romântico" que tanto se fala em "casamento perfeito" quando a sintonia acontece.
Suas aulas devem ser preciosas e especiais.
Também estou muito feliz por te conhecer. Já tens um cantinho cativo no relicário que trago do lado esquerdo do peito.

Responder esta

Bráulio Tavares falou como quem realmente conhece o tema e sobre uma obra prima deliciosa. Sensibilidade e atenção suas, Esther. Realmente ha diferenças marcantes entre fazer letra antes ou depois da música, ambas atreladas ao gostoso trabalho de compor, demandando sempre criatividade extra e adequação interpretativa pra quem chega depois. E o comentário da Sonya é uma saborosa viagem. Obrigado pelo belo passeio, amigas.

Responder esta

Ari,
Também acho muito diferente os dois processos de composição, embora minha experiência seja ínfima como letrista. Na verdade, sou é poeta e tive a felicidade de encontrar pessoas com sensibilidade para sentir a música dos meus poemas e criar canções a partir deles.
Quanto a fazer letra a partir da música, já tive a oportunidade, mas nem fiz, por sentir que não bastava preencher a música com sílabas poéticas. É necessário "produzir um texto cuja ressonância emotiva esteja de antemão contaminada por elementos externos ao texto." Agora o Bráulio me trouxe isso à luz da razão! Quero um dia me atrever, e espero ter a capacidade de ser coração, alma, corpo... Toda ouvidos. Senão, prefiro não fazer. (Nada em mim é metade)
Acredito que ambos os processos de criação merecem essa entrega ao sistema límbico, tão bem colocada pela Sonya, e que não se entregar é um desrespeito ao trabalho do parceiro. Sinto isso quando alguém pede minha "cria" - um poema - para musicar. Eu conto que vai pegá-la no colo com o carinho e o respeito que se dá a uma criança, um rebento que lhe solicita a sensibilidade para cada expressão de amor ou de angústia, cada exaltação ou recolhimento, e a música virá dessa relação, expressando também essas emoções. Fico angustiada quando alguém faz um rock de um poema que mais parece a letra de uma feminina modinha imperial, por exemplo. Então, às vezes sou a chatinha que diz "não gostei", porque só acredito em PARCERIAS com alto grau de sintonia e satisfação final de AMBOS. Encaixes perfeitos, pra mim, são aqueles em que os parceiros gozam JUNTOS no final.
Isso significa que falaram a mesma língua - dos anjos e dos homens -, e tiveram amor.

Responder esta

Esther,
essa de encaixe perfeito em parceria, satisfação final juntos e gozar juntos no final só vindo dessa alma sensível! Que visão interessante... No final, não existe regra, essa é a verdade. E um tema sobre criação é inesgotável. Cada um de nós pode ter sensações próprias ou diferentes até em momentos diferentes da composição ou do processo produtivo, mas esse final realmente é excitante e compensador, quando atingido. - Isso é também uma forma de amor, pois não? - Beleza, poetiza.

Responder esta

Ari, Obrigada por partilhar isso: parceria é mesmo uma forma de amor!
Uma belezura sua sensibilidade.
Forte abraço.

Responder esta

Esther querida
vai pra ti a ins-piração:

me pega no colo
me sente na pele
pressente
o acaso perfeito
que faz de mim
teu melhor presente

me pega no colo
me aninha em teu peito
deixa bater
num só andamento
nosso comum sentimento
satisfeito

põe teu ouvido
em meus poros
delatores
dilatados
dos meus sentidos

me pega no colo
me encaixa em teu bôjo
estojo precioso
onde o gozo dos anjos
dá forma ao amor

e outra:

nada em mim é metade
se de verdade me entrego
não me zango nem malcrio
sou inteira tua cria
sou lírio em delirio
romã em romance
sou vogal doçura
consoante estrutura
num encontro de outro sabor
sou menininho amor

pena q só agora tive tempo de vir aqui
bjbj
Sonya

Responder esta

Que lindo! Obrigada, querida Sônia!

De ins-piração em ins-piração, chegamos juntas em alguns versos ou palavras sempre, né?
Olha só, um antigo poema meu:

TUDO

Não me habituei
a me abotoar,
tua carícia me rasga
a pele afoita do peito.

Nada em mim é metade
nada se faz sorrateiro.
Tudo em mim tem verdade
tudo o que dou vai inteiro.

Não me acorrentei
ao medo de amar,
teu peito sem lascas
é minha carícia maior.

Esther Alcântara

Responder esta

O tema é interessante , pois nos faz pensar sobre a importancia da musica em nossa vida.
Penso que a musica é uma linguagem e se traduz em emoção. A palavra é imediata carregada de sentido e idéias, a musica é muito mais ampla pois ela pode alcançar emoções com sentidos diversos e mesmo produzir imagens e trazer lembranças, logo não concordo que a musica não causa imagens. Sinceramente o tema é muito mais amplo do que a afirmação do autor do texto. A Arte não tem limite, certamente que esta musica do Pixinguinha, primeiro tocou a emoção do escritor que traduziu em palavras. Podemos dizer que neste caso, o autor da letra foi inspirado pela linguagem musical.
Interessante é observar as musicas em linguas diferentes, muitas vezes ela nos induz a emoções e quando voce traduz pode-se constatar a sintonia com o que voce sentiu ou não. Quanto à produção de emoções tanto à letra , quanto a musica, tem o mesmo poder de causar emoções. Me lembrei agora também dos repentistas.Eles tem uma sensibilidade e conhecimento de estruturas musicais que podem se adaptar à diversos temas diferente, considero eles poetas musicais. Um compositor pode criar uma letra complexa exprimida em musica complexa, como também uma letra complexa numa musica simples. A musica moderna em alguns paises, tem marcante a distorção de letra e musica, mais podemos dizer que a letra neste caso é mais um arranjo da musica, do que a sintonia letra e musica
Neste paragrafo do texto “Carinhoso mostra que a dificuldade de fazer letra para música já pronta não é dificuldade técnica de fazer as sílabas poética”
Certamente, pois poema é poemas mais letra de musica pode até ser um poema, como também um poema pode ser musicado.
A afirmativa do autor do texto em questão, quando diz “É mais frequente encontrarmos letra e música que se tolerem do que as que se harmonizam”
Isso entra em contradição quando ele afirma “ letra e música são canais simultâneos de expressão e se influenciam”
Esta aqui foi mais forte “A música é abstrata; sugere e produz emoções, mas não diz nada diretamente" . Como não? A musica produz emoção logo tem sentido imediato, e este sentido descreve ações, estimula pensamentos e evoca imagens. Tai o poder da musica e salve os compositores, artistas capazes de alcançar dimensões, quando tomados pela "INSPIRAçÃO" de nos causar emoções e pensamentos.

Responder esta

Aproveitando o momento quem é de São Paulo e tiver interessado, no Instituto Tobias ,exite um trabalho chamado Euritmia desenvolvido por Rudolf Steinner. Ele associa o poema ao movimento, além de ajudar à desenvolver e harmonizar o hemisferio direito e esquerdo do cérebro, ajuda a produzir Arte, podemos chamar o poema dos gestos ou movimento. Este curso é feito em 4 anos e certamente que fizer ao menos uma vivencia seja artista, psicomotrista ou terapeuta corporal , vão gostar.

Responder esta

Obrigada por avisar, Celinha. Está sempre tão longe e tão perto de nós. Adoro isso em você. Euritmia é muito bacana mesmo. Eu pratiquei uma vez, mas foi apenas uma vivência de alguns dias. Senti uma certa consciência da ocupação do espaço, dos movimentos... Foi bem bacana, pena não ter dado pra continuar.

Responder esta

Bem, respeito a sua visão, Celinha, mas eu não considerei contraditório nada do que citou. Porque o autor não foi taxativo. Ele disse: "é mais frequente... letras que mais se tolerem do que se harmonizem", não disse "é sempre é assim", por isso não se contradiz ao dizer que música e letra são canais simultâneos de expressão. Eu entendo que, no primeiro caso, ele esteja dizendo que nem sempre alcançam essa expressão, porque é frequente a falta de harmonia. Ele foi apenas crítico com relação à produção musical atual, a meu ver.
E quando ele diz: a "música é abstrata, sugere e produz emoções, mas não diz nada diretamente", ele está falando do dizer literal. Só em falar que a música "produz emoção" ele já está concordando com você, Célia, de que a música tem sentido imediato, mas um sentido abstrato, mais ligado ao sistema límbico do que à razão. Diferente da letra, que trás para o concreto, com a palavra "traduzindo" ou "completando" essa abstração, usando de ícones. Claro que o ser humano pode se entender antes da palavra, mas com ela traz para o concreto. Que legal que levantou um questionamento tão bom, apurado e crítico. Valeu!
Beijocas.

Responder esta

RSS

Anuncie
R$ 30,00/15 dias
c/foto de 150x150px e Link, aceita-se todos tipos de pagamentos

Aniversários

Aniversariantes de hoje

Aniversariantes de amanhã

© 2010   Criado por Sonekka no Ning.   Crie uma Rede do Ning!

Badges  |  Relatar um incidente  |  Privacidade  |  Termos de serviço

Entrar no bate-papo