Affonso Moraes. Já era hora!
por Lucia Helena Corrêa*
Imagine a paixão quando amadurece. O dia quando entardece e tinge de vermelho o horizonte... Nem me conte... Imagine o olhar aceso da lua, de madrugada, no interior, ao alcance da mão. Imagine quando bate uma saudade de um não-sei-quê... Imagine o lirismo das valsas e chorinhos que muitos de nós escutaram na Rádio Nacional dos anos 50, 60 e outros, coitados, só de ouvir falar. Mas imagine, também, a batida sempre moderna de canções que sempre estarão na moda... Imaginaram? Então, vocês sonharam com o CD "Já era hora", o primeiro de Affonso Moraes.
Produção doméstica que esbanja profissionalismo e estampa as assinaturas dos dois filhos do compositor, Álvaro e Alexandre Cueva, "Já era hora" é comovente! Indispensável! Inesquecível!
O patriarca de uma família em que todos cantam e tocam, somente agora, aos 74 anos, jovem-senhor-menino, se lança num disco. "Já era hora", seu Affonso! Cada uma das 16 faixas (algumas delas compostas há mais de 50 anos), na voz de Affonso e/ou dos filhotes, parceiros do pai e arranjadores, injeta em nós, pelos ouvidos e por todos os sentidos, o delicioso prazer das belas canções.
No samba, Affonso compõe no ritmo do coração das nossas mães, quando ainda nos carregavam no ventre... A mesma cadência, hoje, eu só ouço no surdo da Mangueira! Affonso resgata o bom-gosto dos grandes mestres. Cartola... Nelson Cavaquinho... Ataulfo Alves... Zé Kéti... Geraldo Filme... Paulinho da Viola... Tão confortável... No chorinho, desperta Pixinguinha, um dos gênios que o inspiraram... Mas também me lembra o meu vô Quinzinho (Joaquim Antônio da Silva Callado, o "pai" do chorinho). Na valsa, Affonso nos faz lembrar das nossas bisas, de repente, vivas e jovens de novo, rodopiando a saia godê guarda-chuva bem no meio da sala...
Não tem jeito: vivência é tudo. E está impressa em tudo aquilo que cada um de nós fez, faz e fará um dia. "Já era hora" é forjado na própria história de vida de Affonso. Filho de pai caboclo, baiano, e mãe branca, italiana, agricultores e, depois, operários, ele nasceu em 1934, numa fazenda, em Quatá, interior de São Paulo. Aos 4 anos, vivia o encantado papel de mascote no bloco Azul e Branco, na paulistana Vila Anastácio. Aos 10, já fazia canções, fã de Heitor do Prazeres, Ataulfo Alves, Pixinguinha, Braguinha e Cartola. Mas, eclético no gosto musical, apaixonou-se, ainda menino, pela cantora argentina Império Argentina – "uma das maiores que já ouvi; mulher fascinante, mostrando os joelhos ao bailar", conta o compositor. Affonso ainda ouve, resgatados na Internet, Carlos Gardel e Tito Schippa, "um tenor irretocável, sobretudo quando canta boleros".
O doutor Affonso, antes de se formar advogado, foi engraxate... Com certeza, isso explica a preciosidade onomatopéica do samba "Meio-Dia na Praça da Sé", que nos remete a todos os sons e visões da praça mais popular e democrática de São Paulo, ainda que se esteja a quilômetros de distância daquele buxixo...
Mas não é só isso. Além de "Meio-Dia na Praça da Sé" e da canção-título, "Já era hora", enriquecida com a voz dos filhos Álvaro Cueva, Isabel Cueva, ao lado do irmão e do pai, não dá pra perder "Cantando em dó", que revela o cantor incrível que é Alexandre Cueva, com certeza, muitas vezes ofuscado pelo brilhante produtor, arranjador e instrumentista.
Affonso Moraes. Já era hora!
Lucia Helena Corrêa é jornalista, poeta, compositora e intérprete.