No dia em que Ela apareceu
Ele e Ela - No dia em que ela apareceu
No dia em que ela apareceu, ele bebericava com seus amigos, como era de praxe às sextas-feiras. Ele nem deu atenção, também pudera, de tão compenetrado que estava no samba mal acompanhado que acabara de inventar. Ela sentou-se à mesa do lado, pediu um chope escuro, pagou, levantou-se e foi embora sem que sequer trocassem um olhar. Enquanto ela se distanciava, indo embora balançando as partes, todos os que não sabiam tocar deixaram-no na mão, sem acompanhamento.
- Por que pararam de me acompanhar? Não gostaram do samba que fiz? Tudo bem que não sou um Ataulfo Alves e nem chego perto de ser um Mario Lago, mas saibam que esse samba que eu fiz é um samba intelectualizado em que eu uso frases do Neruda, imito a malandragem do Moreira da Silva, cito Zaratustra...
- Não, véio. – dizia o pseudo pandeirista, embasbacado – Olha lá, que coisa de doido!
- Porra, malandro! Desde quando uma bunda que nem tem a pretensão de ser da turma faz parar um samba? Nunca viram, cacete?!
A turma, desajeitada, como que combinado, virou goela abaixo o que tinha nos copos, pediram outras três cervejas e continuaram a versar a obra do figura.
No dia seguinte, agraciado pela magia do inesperado, ele e ela se encontraram, trocaram meia dúzia de lero-lero e pronto. O senhor guardião de todas as fortalezas estava apaixonado. Passaram mais de meio ano se vendo cotidianamente, trocando telefonemas demorados, ou melhor, de namorados, mesmo sem saírem do zero a zero. Todo dia ele acordava (isso quando a insônia amorosa não lhe fazia frente), transformava sua agonia em poesias que homenageavam sua musa (carregava todas onde quer que fosse), e jurava que daquele dia não passava. Que aquele seria o dia em que a felicidade, para todo o sempre, estaria selada. Sofria, procurando frases feitas, mas temia que as mesmas já fossem do conhecimento da bandida dama. Não! Decididamente ele não poderia botar tudo a perder por falta de originalidade.
Encontravam-se, faziam algum programa de cunho cultural, tomavam alguma coisa, e nada de ele desenvolver a conversa. Chegava no máximo a simular um esquecimento de alguma poesia na bolsa da amada, esperando, inutilmente, que ela ligasse para ele emocionada a ponto de fazer com que lágrimas lhe escorressem por aquelas belas maçãs em que se transformavam suas bochechas quando diante de situações inquietantes, seja ela de fúria, seja ela de alegria. Nada feito. Continuavam a se encontrar e a sujeita em nada clareava a situação do nosso protagonista. Chegou a um ponto que ele foi procurar o conselho do preto velho de confiança de um amigo seu:
- Preto Velho, sei que não sou freqüentador assíduo do Centro, mas peço licença para me aconselhar
- Ha-ú-gum, mininu qué conseio, né? Pêto Véio tá qui pa HuHum pa lha Judá. Num impoita qui num vem im nóis, puique o grandi Deus é pá todu mundu, viu Há-ú-gum.
- O senhor já sabe da minha angústia... O que acontece? Faço tudo por essa garota... Tá vendo, não consigo nem me referir a ela com xingamento. Faço tudo por ela e nada! Tô mais perdido que filho de puta em dia dos pais. Pode me falar, ela tem outro?
- Mininu tem qui intendê qui Pêto Véio num é Mãe Diná pá fuxica da vida do alheio Há-hu-gum. Maisi Pêto Véio abriu exceçãozinha pá uncê. Minina num tem otru, não. Maisi Pêto Véio Há-hum dizi pá mininu saí dessa. Tem muitas muié bunita, cheirosa, querendo uncê. Pêto Véio si dispedi agora di mininu Há-gu-gum-do don.
Depois dessa do Preto velho, o rapaz ficou sem entender bulhufas nenhuma e, mais uma vez, decidiu que do dia seguinte não passaria. Achou que o Preto velho não passava de uma mancada e, na sua doentia paixão, deu como certeza que aquilo era sacanagem armada de algum conhecido que queria tragar do seu charuto, afastando-o da garota para poder atacar.
Chegou em casa, ligou para a da guria e, tomado de uma confiança incríve,l disse:
- O-o-oi. A-a-cho que precisamos conver-as-sar.
- O que foi, tá nervoso? Aconteceu alguma coisa?
- Amanhã, três horas da tarde no cinema de sempre. Preciso lhe dizer algumas coisas. – disse rapidamente, já mais calmo.
- Olha, eu também preciso lhe falar. E, certamente, é tão sério ou mais do que o que você tem para me dizer. Sabe, essas coisas do coração... Amanhã lá. Beijos.
O rapaz foi tomado por uma esperança que lhe transpassava as carnes. Será agora, -pensava ele- Eu sabia que esse Preto Velho tava mais por fora do que bunda de índio.- E, numa fúria absoluta, fechou-se a escrever poesia atrás de poesia durante a madrugada até o momento do encontro. Levou junto dele uma pilha de quarenta e três poemas com os quais presentearia sua musa no momento em que ela dissesse que o amava. Chegou o momento, três horas da tarde e o sol se fez forte para contemplar tão belo momento. Afoito, ele perambulava na frente do cinema, tendo cada segundo de atraso como o mais arrogante dos inimigos. Suava pelas mãos e pelo bigode que ameaçava a nascer, deixando-lhe uma aparência mais madura (ou babaca?). Até que viu apontar sua grande paixão. O coração disparou num galope frenético, parecendo querer ganhar liberdade e sair daquela carcaça. Ela estava chegando. Ele a enxergava em câmera lenta. Seus olhos focalizavam apenas ela, como se estivessem solitários naquela praça. Ela chegou, ficando separada dele um mínimo de distância e, sorridente, disse:
- Oi. Essa é Claudia, minha namorada.
O mundo do rapaz desabou. Estado de choque consciente. Deu as costas às duas, sentou-se num banco próximo e lá, jurando nunca mais amar, queimou todos os versos.
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