VIRGINIA MARTINEZ

Já se disse de Janis Joplin que seria a única branca capaz de cantar “blues”. Claro, eram outros tempos, e ainda não havia Virginia Martinez. A cantora, expoente do “blues” no Cone Sul, que esteve mais uma vez em Rio Grande recentemente, lançando o seu CD, apresentando-se, na cidade, e na praia do Cassino, cede espaço às novas tendências, transcende o velho quadro do antigo retrato em branco e preto e vai além, trazendo em si o lado “blues” que confere, a esta vertente musical, novos coloridos, e brilha como o sol que se vê por todos os cantos do Uruguai, país da artista. Com efeito, ela não se limita à esfera do “blues”, sob um prisma essencialmente purista, e mais do que ao quadrado, eleva ao cubo suas potencialidades, fundindo-o com outros estilos de similar matiz e derivados de idêntica matriz, como o “rock” e o “soul”, numa espécie de hibridismo que integra e fortalece o gênero, que se faz suave e desce redondo.
Foi por isto que valeu a pena, numa noite fria de maio, ter pegado a estrada, a RS-734, ou quem sabe a “Route 66”, ou mesmo a de “Hit the Road, Jack”, integrantes do itinerário que partiu de “Summertime”, embora a temperatura estivesse mais para “Autumn Leaves”, até chegar a “Take me to the River”, território em que a comunicativa Virgínia, face da simpatia e expressão da alegria a transbordar em agradável contraste com a tradicional melancolia do “blues”, transita com competência ímpar, ao lado de Rodrigo Santini, que primorosamente a acompanha na guitarra, e, em um segundo momento do ‘show’, da cozinha maravilhosa de Leôpa e Hamilton.
O clima requeria um vinho tinto a acompanhar e a regar o “entrecot”, entre uma e outra canção. Entretanto, a atenção que a ‘lei seca’ exige e que requer, em especial à noite, a obra de duplicação da estrada que liga a cidade do Rio Grande à praia do Cassino, não tornou possível esta extravagância. Contudo, mais do que alimentado o corpo, restou saciada a alma, é o que importa.
Por fim, ao assistir Virginia Martinez encerrar seu espetáculo ao som de “Take me to the River”, resta viva a esperança de que o Rio Grande continue a ser um importante porto em que aporte sempre e faça escala o “blues” do Mercosul.
César Lehn