
O SOPA DE LETRINHAS (O SARAU DO CAIUBI) é uma festa chacriniana com muita música, poesia e bom humor. Acontece uma vez por mês. Sempre na última Sexta-feira. Músicos, intérpretes, compositores, poetas e performances dos mais variados estilos apresentam suas criações para um público incrivelmente atencioso e participativo. O público presente no evento participa lendo poemas do poeta homenageado da noite e concorre a vários prêmios. No final do evento é servida (na faixa) uma deliciosa sopa (de letrinhas).
O SOPA DE LETRINHAS É UM PROGRAMA DE AUDITÓRIO
O Sopa de Letrinhas nasceu sob o signo de Dionísio.
Nasceu pra ser festa! Celebração!
Sarau não precisa ter cara de velório,
por isso, o Sopa nunca flertou com a imortalidade acadêmica,
nunca desejou ressuscitar o hype literário da Villa Krial,
muito menos fomentar uma nova Semana de Arte Moderna.
O Sopa é o que sempre quis ser: entretenimento puro.
Um Programa do Chacrinha lítero-musical.
Anárquico, debochado e, acima de tudo, democrático.
No Sopa tudo pode. Todos podem.
Pode o poeta laureado, o poeta udigrudi, o poeta cabaço,
o poeta romântico, o poeta reumático,
o poeta modernoso, o poeta místico,
o poeta mequetrefe e o poeta pornográfico.
Você gosta de poesia?
De música?
De bom humor?
De gente do bem?
Então, venha numa sexta-feira dessas provar a nossa Sopa.
Garanto: a bagaça é duca!
VLado LIma

PRÓXIMA EDIÇÃO DO SOPA DE LETRINHAS:
Dicas & Toques do Machado (18/06/2009) (quinzenalmente o jornalista e poeta Carlos Machado
escreve sobre poesia no blog do Sopa)
Caros,
Entre os poetas, não são muitos os que se dedicam a escrever para crianças. E entre os que o fazem, poucos são aqueles que alcançam a graça, a leveza e a criatividade que representam o passaporte obrigatório para se comunicar com o mundo infantil. Durante o século XX, dois dos poetas que mais se destacaram nessa tarefa, no Brasil, foram Cecília Meireles (1901-1964) e José Paulo Paes (1926-1998).
Tanto a carioca Cecília como o paulista Paes exercitaram-se com muita felicidade na difícil tarefa de escrever para infantes. Os riscos mais comuns desse exercício são, de um lado, produzir poemas numa linguagem tatibitateante, que na prática trata os pequenos como bobocas.
No outro extremo dessa mesma linha, a casca de banana consiste em tentar atrair as crianças com poemas de rasa elaboração, achando — mais uma vez — que só adultos são capazes perceber sutilezas e astúcias criativas. Outro perigo, ainda, é achar que o poema infantil é o lugar adequado para aplicar lições de moral.
Os trabalhos de Cecília Meireles e José Paulo Paes conseguem escapar de todas essas armadilhas. Lançado originalmente em 1964, os textos de Ou Isto ou Aquilo, volume que reúne os poemas infantis de Cecília, já embalaram gerações de leitores miúdos que tiveram a sorte de ser apresentados a eles por pais, parentes, professores ou amigos. Quem é capaz de esquecer o ritmo gracioso de "A Bailarina"?
Esta menina / tão pequenina / quer ser bailarina. // Não conhece nem dó nem ré / mas sabe ficar na ponta do pé. (...)
Do mesmo modo, em seus últimos 15 anos de vida, José Paulo Paes publicou uma dezena de volumes voltados especificamente para leitores infantis. O primeiro foi É Isso Ali, que saiu em 1984. Curiosamente, talvez ainda inseguro em sua estréia infantil, Paes indicou como subtítulo do livro: Poemas Adulto-Infanto-Juvenis. Ora, de fato são textos capazes de encantar pessoas de qualquer idade. Quer um exemplo? O poeminha "Portuguesa":
— Manuel, quando é agora? // — Ora, pois pois: / depois de antes ou antes de depois!
Neste boletim, reuni uma pequena amostra de poemas infantis de Cecília e Paes. Ao mesmo tempo, para não deixar a idéia de que o trabalho desses dois poetas ficou sem continuidade, acrescento textos de outros dois poetas de gerações mais recentes, ambos já enfocados aqui no poesia.net: Sônia Barros e Ruy Proença.
O paulistano Proença, depois de vários livros de poemas adultos e traduções, envereda pela primeira vez na poesia infanto-juvenil com o voluminho Coisas Daqui (2007). Sônia Barros, paulista de Monte Mor, já publicou uma dúzia de livros de ficção para menores e estreou em 2007 na área de poesia para adultos, com Mezzo Vôo. No ano seguinte, marcou nova estréia, com Coisa Boa, coletânea de poemas para infantes.
Alguns dos traços comuns entre os melhores poemas infantis são a brincadeira com palavras, o nonsense, o trocadilho, rimas bem cantantes — e, obviamente, ritmo.
Um abraço, e até a próxima.
Carlos Machado
Pra ler mais Dicas & toques do Machado visite http://www.algumapoesia.com.br/
Homenagem do Sopa de Letrinhas ao Grande Zé Rodrix.

Grande piloto de churrasqueira.
Grande cozinheiro.
Grande contador de piadas.
Grande amigo.
E, dizem por aí, um grande cantor & compositor.

Meu querido Zézinho!
Incendiário.
Iconoclasta.
Um Faz-Tudo das artes.
Sua genialidade artística só não foi maior que seu coração.
Coração de leão.
Coração de menino.
Coração de maluco.
Um fraco coração.
Coração que agora bate lá longe,
quem sabe numa casinha de campo lá no céu,
ou no inferno, pois, conhecendo o Zé,
tenho certeza que ele acaharia o céu um lugar chato pra caralho.
Segue alguns poemas do saudoso mestre.
Poemas, na maioria, enviados pelo próprio Zé para o blog
e o livro coletânea do Sopa de Letrinhas.
Valeu Véio!

ZE RODRIX nasceu no RJ mas mora em SP faz 25 anos: aqui acabou desenvolvendo todos os seus talentos. Faz musica, canta, produz, cria publicidade, inventa teatro, dirige cinema, escreve livros, ja tendo lancado os tres volumes da TRILOGIA DO TEMPLO ( Ed. Record) Nao confunde letras de musica com poesia, porque sabe que as duas são territorios e ferramentas muito diferentes uma da outra: mas de vez em quando quando a Musa da Poesia lhe faz uma vista, ou pelo menos dá uma ligadinha pro seu celular, se arrisca a poetar.
O auto-necrológio de Zé Rodrix
Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai:
assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o
tivesse pego em pleno ato... mas hoje nao mais. Pode ser de fulminante ataque
cardiaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da familia e dos
amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa,
ja me encontrem morto, com um sorriso nos labios.
Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, ja que nao poderei
ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no
entanto, que nao cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa:
deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem
no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, atraves de convite formal, comparecer todos que foram
aos meus lançåmentos de livro: nada mais parecido com um velorio do que isso.
Peço parcimonia nos efluvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem
limite. Creio inclusive que prepararei com antecedencia uma fita de piadas
gravadas para animar o velorio e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo,
"sempre rir, sempre rir...."
La so deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter
certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Nao
pretendo puxar a perna de ninguem à noite e nem assombra-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para
avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possivel. A
cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus proprios
afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre ja será um gardne introito
para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do
Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como ja vou chegar la
tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a
Terra, creio que nao será dificil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ
por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum
prazer, assim na terra como no inferno....é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Mnha
morte servirá certamente para que se livrem nao apenas de mim mas tambem de
minhas obras. Os herdeiros tambem nao merecem ouvi-las, sabendo que nada
herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da politica do VAI TRABALHAR,
VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, ja tomei providencias para que essas
musicas nao lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velorio moderno,
recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutiveis, claro, com algumas
discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado,
naturalmente.
Morrer num Sabado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e
estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida
profissional de ninguem: eis a perfeição que desejo na minha morte.
autor: Zé Rodrix
SÚBITA ELEGIA DO GRANDE POETA
1. Sentado em roda de amigos,
o Poeta fala de si mesmo
como quem fala de uma flor rasteira:
- Dos Marios, o menor.
Discordo e salto, e o faço saber:
- Dos Marios, o melhor.
2. Digo isso por reconhecer,
como verdade dos fatos,
que a lida do Poeta é o nao-curvar-se
às infantilidades sem sentido
que hoje em dia passam por Poesia.
É o nao-tentar fazer crer que uma piada
Seja alguma coisa mais que isso,
mas sim exercer o seu Ofício
no obscuro territorio acima&alem
da excelsa soma de todos os Marios.
Navegando sem hesitações
sobre o concreto das urbes de papel,
intocado pelo eterno vai&vem
de suas pequenezes insondaveis.
Buscando sempre compreender,
(por ser Poeta)
o foi&veio do abaixo&aquém
em que chafurdam os que só se unem
pra separar
e só se somam
pra dividir
3. Sentado em roda de amigos,
o Poeta tenta (em vão) minimizar
o valor de seu Ofício imarcescivel.
E imerso nas palavras que o Poeta
joga e nos faz jogar, diariamente,
olho seu rosto e entendo, num repente,
toda a riqueza de nossa existencia.
Sou tomado por lucida visão
do papel que nos cabe nesse mundo,
mundo em que a Vida só ganha sentido
ao deixar de ser terra-de-ninguem
quando exercemos o Oficio, dia-a-dia.
4. Paira no céu uma verdade insólita
que hoje pude entender, sem ironia:
Há Marios que vem pro bem.
(sempre o maior bem da Poesia)
[QUANDO UM ARTISTA SE MATA]
QUANDO UM ARTISTA SE MATA
ENRIQUECENDO A SEU DONO
E EMPOBRECENDO A SI MESMO
DEFINITIVAMENTE
SEMPRE APARECE QUEM QUEIRA
A TODO CUSTO IMITÁ-LO
SEM QUE PRA ISSO PRECISE
MATAR-SE JUNTO COM ELE.
QUANDO UM ARTISTA SE MATA
ESTA PAGANDO MAIS CARO
O PREÇO QUE FOI COBRADO
ANTECIPADAMENTE
MAS QUEM O IMITA POR PARTES
ACHA QUE PODE TER TROCO
SEM QUE PRA ISSO PRECISE
PAGAR O MESMO QUE ELE
NESSA HORA É QUE SURGEM OS VERSOS DO GRANDE POETA
QUE ENTENDEU BEM MELHOR DO QUE NÓS O QUE É SER DA ARTE
O QUE É ENTREGAR-SE INTEIRO AO FAZER O QUE DEVE
E QUE VAI MUITO ALEM DE IMITAR O QUE NUNCA SE IMITA
( PERGUNTANDO:)
"SE TE QUERES MATAR,
PORQUE NAO TE QUERES MATAR???
SE TE QUERES MATAR,
PORQUE NAO TE QUERES MATAR???
SE TE QUERES MATAR,
PORQUE NAO TE QUERES MATAR???"
OU NAO ÉS CORAJOSO O BASTANTE
PRA ENFRENTAR-TE A TI MESMO???
[SENDO HOMEM, FUI TREINADO]
SENDO HOMEM, FUI TREINADO
PARA DIZER SEMPRE SIM:
QUALQUER PROPOSTA FOI FEITA
SOB MEDIDA PRA MIM
BODE SOLTO PELO MUNDO
ATRAS DAS CABRAS ALHEIAS,
DISSE SIM SEM HESITAR
ÀS INTEIRAS E ÀS MEIAS.
TREINADO PARA ACEITAR
O QUE QUER QUE OFERECESSEM
NAO DEIXEI CRESCER MEU EU
PRA QUE NAO ME CONHECESSEM
BODE SOLTO PELAS RUAS
ONDE QUER QUE HOUVESSE GENTE
DISSE SIM A QUALQUER UMA
ATÉ QUEM ERA PARENTE....
E QUANDO O AMOR SURGIU
ESTRANHEI DEMASIADO:
ERA MAIS FORTE QUE EU,
E EU ME SENTI DOMINADO.
BODE SOLTO PELA VIDA
SAÍ DANDO CABEÇADA
ACERTANDO QUEM CHEGASSE
PERTO DEMAIS DE MEU NADA...
A SOLIDÃO QUE HOJE VIVO
É CULPA DE QUEM ME FEZ
BODE SOLTO, SEM SENTIDO,
ATRAS DA CABRA DA VEZ
SENDO HOMEM, FUI TREINADO
PARA DIZER SEMPRE SIM:
E OS NÃOS QUE ME SALVARIAM
EU SO OS DISSE PRA MIM.
LETRISTA QUE É LETRISTA
NAO FINGE QUE É POETA:
SE É MARIA, SAI DA LATA
SE É JOSE, ACHA O CAMINHO.
ARTISTA QUE É ARTISTA
NAO SE EMOCIONA COM POUCO:
SE TEM SEDE, QUEBRA O COCO
SE TEM FOME, SE RÓI A SI MESMO....
NAO SE CONFUNDE COM OUTRO,SINHÔ,
NAO SE MISTURA COM NADA,
MANTEM SUA COMPOSTURA, SINHÔ,
ATE QUANDO ESTA ERRADO
PEGA NO BREU DO OFICIO, SINHÔ,
MESMO QUE ISSO LHE DOA
E SO FICA SATISFEITO
QUANDO A OBRA É HONESTA E BOA...
LETRISTA QUE É LETRISTA
NEM SE LEMBRA QUE É ARTISTA:
VIVE O MOMENTO DA ARTE
NA COMISSURA DA LETRA
ARTISTA QUE É ARTISTA
NEM SE RECORDA QUE É GENTE:
FICA TOMADO DE ESPANTO
E QUANDO ACORDA TEM MAIS UMA FILHA
NAO SE CONFUNDE COM OUTRO,SINHÔ,
NAO SE MISTURA COM NADA,
MANTEM SUA COMPOSTURA, SINHÔ,
ATE QUANDO ESTA ERRADO
PEGA NO BREU DO OFICIO, SINHÔ,
MESMO QUE ISSO LHE DOA
E SO FICA SATISFEITO
QUANDO A OBRA É HONESTA E BOA...
LETRISTA SO É LETRISTA
NAO PRECISA SER ARTISTA
ARTSTA QUE É SO ARTISTA
NAO PRECISA SER MAIS NADA.
JESUS NUMA LATA - homenagem ao Zé (Rodrix)
(começo da viagem)
Pessoana - Zé Rodrix
(para Angela Dutra)
Nao abro portas.
Nem portas nem janelas.
Fora isto, levo uma vida real,
como toda gente.
Real, usual, normal, como queiram,
em que os dias vem um trás o outro
como vagões de um comboio desgovernado
cujo destino nem mesmo o maquinista conhece.
No vagão de hoje, neste vagão que é o dia de hoje,
faço o mesmo que fiz no vagão de ontem
e que farei no de amanhã,
em repetição constante e nem um pouco misteriosa
de atos caóticamente identicos,
porque, mesmo que eu quisesse romper com essa platitude infinita,
mesmo que eu pudesse por minha vontade trocar de vagão,
com quem trocaria, se estou irremediavelmente só
em todo e cada vagão sucessivo de meus dias?
Sei que sou, por que cá estou.
Sei que estou, porque cá me percebo.
E mesmo se não me percebesse
(alucinado por um ópio qualquer)
ainda assim cá estaria
e seria eu-mesmo,
porque a realidade das coisas
ultrapassa em muito os desejos de ser-se isto ou aquilo,
porque tanto isto quanto aquilo
acabam por revelar-se
exatamente o mesmo que tenho sido e ainda serei.
Olhar para tras ou para frente nada muda:
os vagões deste comboio são idênticos,
e mesmo nas ocasiões em que minha propria alma,
vestida com o fato azul-marinho de condutor,
vem pedir-me o bilhete, para picotar,
não me encontra,
pois me escondi no lavatório,
já que o bilhete nunca sei onde o pus,
e nao quero ser expulso por nao poder exibi-lo.
Tenho medo de ser expulso de minha propria vida,
porque minh’alma, quando veste o tal fato azul-marinho
e põe à cabeça o quepe galardoado,
se torna poderosa e autoritaria,
e se nao lhe mostro o bilhete
(que na verdade nao me recordo se algum dia tive)
é bem capaz de atirar-me para fora de mim mesmo,
deixando-me sem corpo, nem chapéu,
abandonado a meio-caminho
entre o Nada e o Coisa-Alguma.
Nao quero pensar em mim,
que já nao me suporto!
Eu, que tantas vezes na vida
nao fui capaz de dizer ao acensorista o andar que queria,
simplesmente porque já me enganara de prédio,
que farei eu desse eu-mesmo
que já nao reconheço por não haver espelho para o inexistente?
E, se ao expulsar-me do trem,
minh’alma de quepe e farda
ainda houver por bem atirar-me a bagagem por cima
abandonando-me com este peso inerte?
Ou então (pior!) se decidir a levar-me a mala consigo,
como ressarcimento pelo bilhete inexistente,
e a mim só me restar este costume rasgado pela queda,
sujo de terra e grama, e cada vez mais enrugado?
O apito toca, de subito:
e eu, como quem acorda de um sonho, percebo que paramos.
Minha vida estaciona lentamente em uma estação qualquer,
para tomar água, comprar os periodicos e os refrescos,
esticar as pernas.
Tambem desço.
Mas logo, logo, retorno a meu lugar,
de puro mêdo que minha vida parta sem mim.
E, enquanto me sento onde já estava,
tentando inutilmente ser o mais invisivel que possa,
minh’alma fardada atravessa o vagão,
olha em minha direção, sorri como se fôssemos velhos conhecidos,
dá-me dois tapinhas ao ombro
(com uma familiaridade desconcertante)
e me deixa só, mais uma vez irremediavelmente só,
enquanto uma réstia de sol rompe a barreira das nuvens
e me faz fechar os olhos
desde sempre enevoados.
HONESTÍSSIMO POEMA TERMINAL
No vidro de trás de um fusca,
um plástico traz a questão,
filosófica e quase poética:
— Quer emagrecer? Pergunte-me como!
Ao lado,
um retrato do Cazuza,
cinzento
e com no máximo 25 kilos de peso.
Cada um experimenta aquilo que quer,
pode
e consegue.
E o politicamente correto
não existe.
A GREVE POETICA
Num site de internet
poetas fizeram greve,
deixando de postar
sua arte.
Ninguem notou.
As Canções
Burguesia
(para joão araujo)
a burguesia cheira bem
a burguesia,
( ao que tudo indica)
ja é rica.
a poesia
( a.k.a. os poetas)
tem sido sustentada
pela burguesia
desde que o mundo é mundo,
ou a partir da invenção
das leis de incentivo cultural.
o poeta diz que odeia
a burguesia.
mas se lhe oferecermos
uma vida
de operario
salario
de proletario
horario
de comerciario
tratamento
dentario
de industriario,
se ofende.
( e nos chama de “burguesia”,
cuspindo a palavra
como se ela lhe soubesse a merda
na boca)
é facil ser anti-burgues
com a geladeira cheia
entrevista na caras
mesada familiar
ou uma sinecura governamental
recebida por ser militante
do partido
no governo.
no atual
estado de coisas
so mesmo a burguesia
consegue sustentar a poesia.,
financiando a aventura
burguesa
dos poetas auto-declarados.
( enquanto isso,
os verdadeiros poetas,
sem registro municpal,
estadual
nem federal,
tiram meleca do nariz,
porque o ouro
ja foi gasto
com esses poetas
que a burguesia
adora.)
O Presidente Silva
Sobram-lhe gogó e goró,
faltam-lhe ginasio e petróleo.
Há de ficar
eternamente
na duvida
balançando pendularmente
entre ser lider
e ser liderado:
para qualquer um dos dois papeis
faltam-lhe ginasio e petroleo,
sobram-lhe gogó e goró.
Filhos e Netos de John Lennon
Crianças a quem ninguem disse nao,
se tornaram insensiveis,
individualistas,
egoistas
e chatinhos.
Como nao tiveram infancia,
esperaram crescer
para se vestir como
meninos&meninas:
gravatas com personagens de disney,
saias coloridas e tiaras de neon,
comportamento falsamente timido
ou impertinentemente arrogante.
e na solidão de seus quartinhos
emperiquetados
choram a ausencia das palmadas
com que seus pais nunca os premiaram.
Aí saem na rua
e se dizem artistas
pensando que a arte é so
fazer o que lhes dê
na telha.
Ai caem no mundo
e se dizem poderosos
erguendo estatuas de vômito
às suas proprias incompetencias.
Aí caem em si
e descobrem que estão
fora de si.
EU ME SEXO, VOCE SE DROGA,
NÓS NOS ROQUENRROLAMOS
EU CHOVO, VOCE SE MOLHA
NÓS NOS TEMPORALIZAMOS
HÁ CALAMIDADES PUBLICAS
HÁ MONTANHAS QUE DESLIZAM
E EM TODA PARTE OS SINAIS
QUE NOS ALERTAM E AVISAM
EU ME BARCO, VOCE SE AVIA,
NOS NOS BOLERIZAMOS
EU SOLO, VOCE SE DOURA
NOS NOS TROPICALIZAMOS
HÁ BELEZAS PELAS RUAS
HÁ DELICIAS NAS ESQUINAS
E EM TODA PARTE ESSA GENTE
QUE NAO DECIFRA AS BUZINAS
O MUNDO É MESMO ASSIM:
BALANÇA SEM FIEL
UM SO DESEQUILIBRIO
EM TODOS OS LUGARES
O INFERNO DA EXISTENCIA
NUM CÉU DE FEL E MEL
E MUITA ANESTESIA
NOS BARES E NOS LARES.
O MUNDO É MESMO ASSIM:
COMPORTAS SEMPRE ABERTAS
JANELAS E RELOGIOS
MARCANDO TEMPO E ESPAÇO
AS RUAS SÃO TÃO TORTAS
( ATE AS QUE ESTÃO CERTAS )
E EM TODOS OS POETAS
O MEDO DO CAGAÇO
E QUEM NAO SABE VER A SAIDA
ESTA PRA SEMPRE PRESO NO LAÇO.
nunca vi nenhum pastor
chegar na frente de sua congregação
e dizer que o unico deus verdadeiro
é o da igreja ao lado.
nunca vi nenhum partido politico
lançar um manifesto
para dizer que a posição correta
é do outro partido.
nunca vi nenhum ativista sexual
defendendo a opção do outro.
nunca vi nenhum cego
que adorasse a escuridão.
e no entanto, se movem...
O Poeta, O Letrista, O Musico & o Artista
o poeta suspira
o letrista respira
o musico complica
o artista conspira
o poeta se perde
o letrista se encontra
o musico é de centro
o artista é de ponta
o poeta se ama, se fere, se anestesia
o musico se esconde no acorde da guitarra fria
o poeta se ampara, consola, deprime, comprime
o musico perde o pé
o letrista tem, o artista é
o poeta desmancha
o letrista desponta
o musico dá pinta
o artista dá conta
o poeta se inverte
o letrista se inventa
o musico nao sente
o artista nao mente
o poeta se acende, se apaga, de noite e de dia
o musico se enche de cana na mesa vazia
o poeta exagera, se abre, se fecha, se esgota
o musico nao fala mais
o letrista sabe, o artista faz
o poeta é da vila
o letrista é da fala
o musico é da vela
o artista é da fala
o poeta controla
o letrista completa
o musico é pró-forma
o artista é profeta.
O poeta se perde, se encontra, debaixo da pia
O musico se faz de mané pra enganar a tia
O poeta se entope, se engasga, se espeta, se espalha,
O musico esta feliz
O letrista escreve
O artista diz.
Soneto do INSS
Ora, direis, ler os poetas que pululam pelo mundo
enquanto a vida dentro e fora subverte as honrarias?
Dai-me licença, vis mortais, que traçarei epifanias
sobre os poetas que conheço e conheci, poços-sem-fundo...
Poetas são todos aqueles que vegetam numa fila
de algum INSS de suburbio espaventoso,
onde do vil esparadrapo de um furunculo gosmoso
escorre semrpe a poesia, qual remela da pupila
Poetas são os que se arriscam a rimar e fazer metro
mesmo que isto soe velho, falso, vil, cruel preguiça
e exibem tudo o que saiu junto aos modernos reis sem cetro...
Poeta mesmo, sem descarte, é o popular ze tamborim,
traçando letras num papel, enquanto o pávido lingüiça
declara aos berros:- é poeta!, enquanto lê do samba o fim.
A POESIA VIROU SOPA Tudo bem, digam que a poesia é o patinho feio da literatura e que a letra de música é o primo rico da poesia. Digam que poeta é sujo e maltrapilho, que poeta bom é poeta morto e que a poesia já morreu. Digam o que quiserem, mas saibam que poeta é teimoso pra caralho e não se conforma de darem-no por morto: poeta é vivo e mostra as caras. Foi por tanta teimosia e cara de pau que o Sopa de Letrinhas nasceu associado ao clube de compositores da Rua Caiubi, 420, e sobrevive por heróicos seis anos. Certo que o quartel general já não é mais o mesmo e que o endereço de origem despejou a poesia e a música autoral para vender pizzas (não sei se saborosas, mas pizzas, sem qualquer trocadilho com a realidade). Certo que a passagem pelo Bexiga durou pouco e que os Jardins suspensos não abrigaram por muito tempo a fina flor que queria ofuscar as de lá. Por sorte e teimosia, a turma das Segundas Autorais e do Sopa de Letrinhas aportaram na sobreloja do 1229 da Teodoro Sampaio. Haja teimosia! A ocupação de Pinheiros já fez aniversário e rende novos frutos a cada dia. A música autoral mantém seu espaço, os poetas mantêm seu espaço e a plataforma de lançamento está cada vez mais bem equipada: primeiro foi o lançamento do site do Clube Caiubi de Compositores e agora é a vez do site do Sopa de Letrinhas. E de quebra a plataforma conta com a parceria do Villaggio Café, nome de tradição na música independente de São Paulo. Digam o que disserem, mas tudo isto promete. Salve o site do Sopa de Letrinhas! Carlos Savasini
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ah! Não sei o nome de vários poetas, então, se vc souber, me diga. bele?
beijos
Solange
Muito obrigada por sua gentileza!
Eu adicionei as músicas do novo disco, Pintando e Bordando, em minha página.
Salve!
Tenho uma ótima notícia: Fui uma das três indicadas para MELHOR CANTORA BRASILEIRA NA CATEGORIA REGIONAL, no XX Prêmio da Música Brasileira (antigo prêmio Tim)! Estou muito feliz e já me sinto vitoriosa com a indicação.
A cerimônia de entrega do Prêmio, que este ano homenageia Clara Nunes, será no dia 01 de julho, no Canecão.
Salve, salve! :)
E quando for a Sampa eu aviso e vou ver vocês de pertim, pode deixar!!!
Bitokitas, meu querido, e sucesso sempre.
Beijos.
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