Clube Caiubi de Compositores

Benedito Deíta

Benedito de Oliveira Santos Júnior ( Benedito Deíta ): nasci no dia 22 de Junho de 1965, em Itapecerica da Serra, cidade meio perdida entre a Serra, seus vales e o céu. Tão buscadora de si quanto eu quando escrevo.Professor de Sociologia ne Geografi da rede pública. Pai de dois filhos, Arthur e Clarissa, criadores em conjunto de si, e de mim, já meio coadjuvante como genitor. Me arrisco em poesia e em um pouco de prosa. dançando bem melhor do que escrevo, relaxando cérebro e vísceras.


SONHOS DEFLORADOS

Levantava sempre com muito cuidado, pra nunca remexer muito toda roupa de cama. Não propriamente pela arrumação, apesar disso ser uma constante em tudo que fizesse, e sim para manutenção de seus sonhos.

Depois de se colocar em pé, antes que qualquer pessoa, mãe, irmãos, ou empregada, entrasse e se atrevesse a mexer na cama, pegava meticulosamente cada uma das peças que usava para se cobrir, no verão, ou no inverno, e delicadamente as dobrava, como se algo valioso fosse protegido por aquelas coberturas.

Unia as pontas das cobertas e dos lençóis de maneira tão precisa que, por muito tempo, resistiam sem ficar tortos os alinhamentos das costuras. E as apoiava numa cadeira, uma sobre a outra, na ordem inversa em que as colocava sobre a cama, facilitando esta tarefa posteriormente.

No verão, pela pequena parcela de proteção que buscava, em pouco tempo a realizava , mas no inverno, com lençol, cobertas e edredom, levantava sempre quinze minutos antes, para não ser surpreendida pelo tempo, ou por algum intruso, e fazer todo o ritual que envolvia arrumar a cama.

Quando havia a necessidade de troca das roupas de cama, antecipava-se à empregada e retirava o lençol, e como se estivesse embrulhando aquele “algo valioso”, enrolava-o das laterais para o meio fazendo um pacote. Retirava-o com muito cuidado, um tesouro inestimável, com mão seguras, mas muito suaves, e o depositava sobre a cadeira. E o mesmo se repetia com as fronhas, tirando-as antes dos travesseiros sem virar suas faces superiores para baixo.

Antes das roupas trocadas, pegava os pacotes que havia feito e os desenrolava sobre a cama, um após o outro. Munida das outras partes para a troca, as colocava no devido lugar como num altar, que, sagrado, deveria parecer intacto, como, se na verdade, se mantivesse limpo e organizado por um desígnio divino.

Desde seus onze, doze anos, vinha, religiosamente, fazendo aquilo, como se aquele fosse seu ato de devoção, seu pacto de sangue com algum amigo imaginário, um ritual de uma sociedade secreta da qual nenhum outro membro faria parte.

Intactos, misturados, facilmente identificados ou não, era assim que queria seus sonhos, que acreditava, procuravam sobreviver em meio àquela vida sem grandes atrativos e de história que não mereciam ser contadas.

Duraram assim até a primeira noite de amor, onde desprevenida, recebeu aquele que não esperava ser seu cavaleiro errante, resquício de algum sonho não mais identificado. Espalharam-se assim todos os sonhos ali depositados, caídos ao chão, e o espaço foi dado à realidade, misturada ao sangue do lençol.

Benedito Deíta


DOCE ENGANO

Encubro teu rosto
Com meu véu.

Me cubro ao teu gosto
Tavestindo-me
De anjo no céu.

Prestidigito paixões sem ossos
Me servindo-lhe flexível,
Regado a mel.

Assumo meu posto
E será tarde quando o enxofre
Revelar o meu fel.

DESCASCAVA CEBOLAS

Cortava cebolas
Num ritmo mecânico
Em busca do cerne
Fugindo do pânico

E não percebia
Enquanto chorava
A história única
Que cada camada contava.

Perdido o controle
Na busca de tempo menor
Não poderia a faca
Lhe fazer mal pior.

Em meio
Ao sangue acebolado
Fez-se cada camada
Um conto não degustado.

GRANDEZAS

Meu amor era tão pequeno.
Cabia na palma da mão.
Controlava-o entre meus dedos,
Passeando por seus vãos.

Deslizava-o sobre o peito.
O jogava no umbigo.
Enroscava-o na virilha.
Brincava com ele pelos vales.

Toquei-o com a boca.
Suguei-o até o cérebro,
Tornando-o muito grande.

E assim ele cresceu,
Bem além do que queria.
Tomou o mundo
E não cabe mais em mim.

Escapou entre meus dedos.
Meu único consolo:
Chupo eles todo dia.

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