
Carlos Machado
Carlos Machado nasceu em Muritiba (BA) em 1951. Jornalista, reside em São Paulo. É autor do livro de poemas Pássaro de Vidro (Editora Hedra, São Paulo, 2006) e tem poemas publicados em revistas e jornais literários, além de publicações virtuais. Edita na internet o boletim semanal poesia.net (www.algumapoesia.com.br).
HOMEM-BOMBA
em que pensa
o homem-bomba
no exato
momento
de soltar o pino
e estancar
o tempo?
em que pensa
o homem-bomba
na hora imensa
em que o sangue
se adensa
e todos os sóis
e todos os poros
e todas as luas
do universo
projetam
forças vorazes
de gravitação na
explosiva
nave de
seu coração?
em que veia
cava o
medo crava
seus tentáculos?
em qual
infinitésimo
de segundo
a mão trêmula
avança para
o pino e
vence a inércia
do ser vivo
que deseja
permanecer
capaz de semente
— não de idéias
mas de
carne viva?
CERTO
as coisas não dão certo
nunca deram certo
não foram feitas para dar certo
nós é que temos a ambição
do alinhamento e da simetria
e até inventamos deuses perfeitos
construídos à imagem
e semelhança do que sonhamos
as coisas não dão certo
nós é que cerzimos o pano
obturamos o dente
remendamos a fronteira no mapa
e inauguramos
na estátua de chumbo
um simulacro de ave
queremos crer
que as coisas dão certo
as coisas agora estão dando certo
e — se deus quiser —
sempre darão
HERACLITIANO
na segunda chicotada
você já é outro
— não importa o lado
do chicote
CAÇADOR
o amor carrega no bolso
sete grãos de chumbo
pisa torto enxerga pouco
e olha de través
nos dias ímpares
vai à caça
nos pares se recolhe
para chorar
quando sai não diz aonde
vai nem deixa pista
quando chega destrói
a casa e
espalha violetas
pelo chão
o amor carrega no dorso
sete grãos de chumbo
FERREIRO
malhar o ferro frio
até que do bruto
metal desponte
o fio da navalha
malhar até que o aço
rubro de cansaço
se renda ao sopro
de um calafrio
e que da matéria
distante e alheia
salte faiscante
uma centelha
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