Clube Caiubi de Compositores

Donny Correia, poeta e tradutor, nasceu em São Paulo, em 1980. Morou em Londres entre 2000 e 2003, onde editou uma coluna de entrevistas no jornal Brazilian News. Publicou o livro de poemas O eco do espelho (2005). Atualmente, é coordenador cultural da Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. Colabora com textos para a revista Discutindo Literatura (Escala Educacional) e publica seus poemas e traduções nos sites Revista zunai (www.revistazunai.com.br) , Cronópios (www.cronopios.com.br) e Germina Literatura (www.germinaliteratura.com.br). Tem traduzido poemas do galês Peter Finch e pesquisado a literatura inglesa medieval e prepara-se para lançar em setembro seu segundo livro Balémanco (Demônio Negro). É graduando em Letras – Tradução pelo Centro Universitário Ibero-americano (Unibero).

DIA DOS NAMORADOS

Ninguém cabe neste coração sujo
Neste pântano de peixes disformes
Na alcova de putas tortas

Este coração /lacrado/ tem seus caprichos
E só desfigura as loucuras que o excitam
Só vomita nos pés que o pisam

Ele tira nacos de empáfia
pelos olhos que perfura
E arranca os membros e a língua que o fuzilam

Ele quebra os dedos leves que o afagam
E /também/ escarra na vil boca que o beija
E espanca – até a morte – vãs palavras de carinho

Ele amamenta suas crias com arsênio e vodka
E alimenta velhinhos com os restos do indizível
E desenterra cadáveres para beija-los na boca

Hoje

Este coração trouxe seu buquê
De fetos mortos para lembra-la
De uma vez /e sempre/
Que um dia o demônio a fez cuspir um filho
Prematuro pela goela da vulva

O mini jardim de sementes podres
em minhas mãos sugerem
que você nunca apague
as chicotadas presas /um dia/
em seu dedo esquerdo

nunca se furte de chorar o lindo roxo
em seus olhos, permutados por facadas
em seu crânio inundado
de silicone e pólvora

Ninguém cabe neste coração sujo
Ninguém mora neste esgoto escuro
Ninguém bate nesta porta rota

Lendo Detritos

É um insight soturno
É o futuro passando
Na velocidade terrível
Da queda
Lobão, “A queda”

Artérias imundas
Insultas por gritos
E baques secos

E tiros de misericórdia:
A misericórdia vadia
Que nos legam tais pérfidos

Camelos vassalos
/a que somos reduzidos/
e o chicote da seiva
pútrida exala sêmen

Havia ira no beijo mutante
Havia rugidos de engasgo
Na voz embargada
Da morte

Pílulas estéreis
Para brotarem risos

(A insônia é a medula que monta
equinumanos bastardos e lisos:
de pêlos garfados do sono injusto)

Existe corrupção em seus olhos /admito/
E existe a inquisição medieval em
Seus vários capítulos / páginas queimadas/
/ larvas de insetos bordadas em pergaminhos/

Parada cardíaca
Palimpincesto
Retificação

E o apagamento que causa
Toda a vontade de revolução



BONECAS

Ser a cadela
de todos os cães
e todos os cães
não bastam

ser a vadia imunda
no cio automático
rasgada por todos os falos
e todos os falos
não bastam

ser a putinha devassa
empalada, com gosto,
por vezes
e todas as vezes
não bastam

ser a piranha banhada
por porras ardidas
e alvas
e todas as porras
não bastam

ser a esposa, a amante,
a freira rompida
por todas as hóstias
e todas as hóstias
não bastam

ser a gulosa bulímica,
boqueteira anorexica,
e todos os boquetes
não bastam

ser a vagaba do século
comer fezes,
beber mijo
e toda a podreira
não basta

ser sua boneca inflada
com boca batráquia
e buça de pano
e toda a candura
não basta

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