Dóris Fleury é uma mulher de letras - todas de macarrão. Enganou vergonhosamente três editores e, assim, conseguiu publicar três livros. São duas antologias de contos - "Mulheres Pintadas" (2003) e "A maldição das cadeiras de plástico" (2006) - e um romance - "Troquei meu destino por qualquer acaso" (2004). Participou do Sopa de Letrinhas até conquistar o público, que parou de jogar tomates nela. Aí foi embora, porque precisava dos tomates.
EACH, A ESCALA DO HOMEM
Sexta-feira passada fiquei duas horas na sala de espera do meu médico. E não tinha nada pra fazer ali. Nadinha de nadica. Nem uma Veja do século passado. Nem televisão com o Vídeo Show. Um caso grave.
Pra matar o tédio, comecei a pensar no meu assunto favorito: homem. Eu sei que não pega bem uma moça confessar, mas adoro pensar em homem. Ou num homem em particular ou no homem em geral - o que era o caso naquele momento.
Estudo o assunto desde os seis anos e já elaborei várias teorias sobre homem. Todas furadas, aliás. A última surgiu ali, naquela sala de espera bolorenta. Já que estava num ambiente científico - e a Ciência está sempre preocupada em medir e classificar as coisas - criei a EACH, Escala Analítica e Classificatória de Homens. Vou explicar pra vocês como funciona.
Trata-se de uma escala de dez pontos. Cinco é o ponto ótimo. Seis já não é tão bom; quatro, também não. Nove e dois é péssimo. E o um e o dez são como aquelas pontuações da escala Richter que nem existem de verdade, são só referência.
Primeiramente, vamos explicar o que é um cinco. O cinco é, basicamente, um homem que convive bem com sua testosterona. O cinco combina maravilhosamente o ying e o yang, tá ligado? Ele está tranqüilão com sua identidade masculina. Gosta muito de ser homem. Não precisa coçar o saco, cuspir no chão nem bater em ninguém pra provar que é homem. Também não precisa comer um monte de mulher, embora os cinco em geral tenham uma tremenda facilidade em comer qualquer mulher. Mas se comer, é por prazer, não pra provar nada para ninguém.
Não posso garantir, por exemplo, que um homem cinco nunca passe uma cantada nas suas amigas. Passa, até porque não é santo. E as cantadas deles são fantásticas! Mas se ouvirem um não, tudo bem; a amizade continua.
O homem cinco em geral tem muitas amigas, que de vez em quando ficam pensando: "Bem que esse cinco podia me dar uma cantada". Porque o cinco é uma companhia masculina maravilhosa. Uma pessoa relax, de bem com a vida. Se algum brucutu for grosso com você, o cinco te defende com elegância, sem baixaria.
O cinco nota quando você faz uma alguma modificação na sua aparência - e sempre elogia, claro. Mas se ficar horas falando da cor nova do seu cabelo, cuidado: de repente ele é gay.
Porque aí está uma coisa interessante: minha escala não reflete orientação sexual. Um homem cinco pode perfeitamente ser homossexual - mas isso as garotas mais espertas percebem logo. Ou você acha que todo homossexual gosta de plumas e paetês? Olha o estereótipo. Olha o preconceito.
Atenção, minha escala também não reflete juízo de valor - o cinco pode ser um tremendo mau-caráter. Mas elegância e boa convivência com sua testosterona, ele sempre vai ter.
Abaixo dos cinco começam aqueles homens que têm uma parte feminina mais pronunciada. Também podem ser muito legais, mas não passam toda aquele à-vontade característico dos cinco.
Um quatro, por exemplo. Você pode casar com um quatro achando que finalmente achou um homem meigo e sensível, sem medo das suas próprias emoções. Alguns anos mais tarde você descobre que ele é um tremendo chorão, carente, meio chato. Quando você quer ficar sozinha, pensando na vida, de bode, o quatro não deixa. Ele sempre quer dar um ombro amigo, mesmo quando você não está interessada em ombro nenhum.
Ah, e outra - sua sogra odeia você.
Ou você pode casar com um quatro mais desencanado, e ser muito feliz; mas quando encontrar um cinco sempre vai achar que está perdendo alguma coisa...
O três é aquele namorado gracinha que você teve na adolescência, que rompeu o namoro alegando dificuldades emocionais, um troço assim. Ele chorava até em comercial de margarina. Um cansaço. Anos mais tarde, pode resolver que é bissexual.
O dois? Sérias chances que esse cara seja drag queen.
No outro lado da escala:
O seis é aquele cara que, sem ser um machão empedernido, já é um pouco homem demais, dá canseira. Se distrair, coça o saco em público. Esquece o Dia dos Namorados. Quando você explica a última briga com a sua mãe, ele até ouve, mas você nota pelo olhar que não está entendendo porra nenhuma. Porque o seis tem uma tremenda dificuldade em sacar a cabeça da mulher. Ele até que se esforça, mas é difícil pra ele, coitado.
E outra: nunca repara no seu cabelo.
O seis, quando está numa situação difícil, funga, suspira, fica de olho vermelho - mas chorar não chora. Já se viu homem chorar?
O sete é aquele cara que pode ser amigão, bom caráter, mas é sempre um tanto grosso, sacou? Tem uma alarmante propensão para se meter em briga. Já perdeu um monte de namoradas porque elas o achavam insensível. Acha que terapia é coisa de veado. Mas, atenção! não fiquem com peninha do sete. Sempre tem uma garota que adora o cara, acha ele viril, gostoso, um tesão. Homem de verdade, sacou?
O oito é o Arnold Schwarzenegger. E se vocês acharem o nove, cuidado, porque é um serial killer.
Alguns exemplos de classificação pela EACH:
- Tom Cruise: quatro.
- Fábio Assunção: seis.
- Marcelo Antony: definitivamente um cinco.
- Reinaldo Gianechini: não existe, a TV criou especialmente para contracenar com a Marília Gabriela.
- Lula - Sete. E olha lá.
- Brad Pitt - quatro. Aquele beicinho é tão chato...
- George Clooney - O cara mais cinco do planeta.
Aí vocês vão dizer, que groselha! Dóris, como você consegue pensar tanta besteira? Bom, eu estava sem nada pra fazer no consultório, né? E não deve ser tanta besteira assim, porque todas as mulheres às quais expliquei o EACH se entusiasmaram. Estão até agora de olho parado classificando maridos, namorados, ex, pais, irmãos e até os filhos.
Com a minha escala, proporcionei às mulheres um indicador seguro e confiável para avaliar os homens. E outra: excelente desculpa pra dispensar o cara.
- Sinto muito, querido. Gosto muito de você, até te acho bonito. Mas você definitivamente é um quatro.
- Não! não é possível! Só quatro?
- Quatro e vinte e cinco, vai. No máximo. E por favor, não chora. Detesto ver homem chorando.
Não seria legal?
LICENÇA POÉTICA
Dia desses vou escrever um poema pra você. Não, falando sério, vou mesmo.
Mas poema sem babaquice, sacou? Nada desse troço antigo de dizer, sei lá, que teus olhos brilham feito lâmpada de 200 watts. Grande merda que brilham, e daí? Qualquer babaca tem olho brilhante, é só pingar colírio...
Também não vai ter aquele papo aranha, teu corpo é isso, teu corpo é aquilo. Muito chato. Prefiro logo uma boa sacanagem. Que aliás é a primeira coisa que me vem na cabeça, quando penso em você. Não que eu pense muito, magina...
Mas sacanagem não pode, né, senão vira poema erótico, pornográfico, essas pouca vergonha. Como é que eu ia mostrar, digamos, pra minha mãe?
Pra você não tem problema, você só pensa naquilo.
Mas fica firme que vou escrever o tal poema.
Vou dizer assim... Peraí, deixa eu pensar... Olha, não vai ter nada dessas declaração de amor, coisa ridícula, acho um porre. Qualquer escrevinhador vagabundo faz isso, né? Te amo isso, te adoro aquilo. Ficou até uma frase meio besta: "eu te amo" não quer dizer mais nada. Dá na mesma falar "vou ali na esquina". "Eu te amo": que coisa mais xexelenta.
E aliás nem se usa mais essas bobagens. Você por exemplo: alguma vez disse que me amava? Nunca. E está certo mesmo, eu ia achar ridículo.
Mas vou sim escrever a porra do poema.
Também não vou ficar choramingando, você me abandonou, partiu meu coração, não sei mais o quê. Mais um poema de dor de corno? Já tem milhões.
E depois, não é nenhum fim do mundo. Que nem você tem dez ali na esquina, qualquer dia da semana. E essa história de amor, namoro, essas besteiras, estão fora de moda. Não era isso que você dizia? Então.
Só que desse jeito, pra falar a verdade, meu poema fica sem assunto.
Hum... Já sei. Achei uma frase genial. Um verso lindo. Não rima, mas resume tudo que sinto. Não tem olhos brilhantes, eu te amo, você me abandonou. Nenhuma dessas veadagens. Vou escrever logo antes que esqueça, você tem aí papel e caneta? que é pra eu anotar correndo.
Pronto. Vou ler pra você:
"Não serei só mais um Big Mac no teu fast-food de gente".
Gostou? Legal? Eu disse que ia escrever um poema pra você. E daí se tem um verso só? Ah, dá licença. Você queria o quê, um livro? Tenho mais o que fazer, e esse negócio de poesia não bota grana na minha conta bancária. Não gostou, problema seu. Mas o negócio é o seguinte: eu escrevi um poema.
CLASSE TURÍSTICA
Você foi pra Nova York e voltou com um casaco de pele de coelho (não sabia que coelhos são uma espécie em extinção?). Trouxe também um americano grandalhão, desses que têm sempre aquela risada idiota na cara vermelha. O americano se chama Bill e você nem desconfia de nada. Bill, imagine. Só sendo muito burra pra não perceber. Não sabe que os gringos estão preparando a invasão desse país? Acha que ele veio aqui pelos seus belos olhos? Trouxa. Aliás, você e toda a sua família, aquele bando de mal-educados que nem cafezinho me servia quando a gente estava junto. Mas pro americano é outra coisa. Sua mãe achou o cara uma graça, seu irmão pediu um green card e sua avó quer saber se ele não tem um avozinho disponível lá no Kansas. Que bando de imbecis.
Fiquem você e sua família puxando o saco do imperialismo, não estou nem aí. Só te digo uma coisa: você não quer saber como morreram esses coelhos.
Você foi a Paris e voltou com um árabe a reboque, fascinada pelo seu narigão e enormes olhos negros - um sujeito com cílios desse tamanho não pode ser heterossexual, se você quer minha opinião. Onde mesmo você achou esse cara? Em Belleville, é? Com certeza preparando uma bomba, pra botar num cinema e fazer dezenas de franceses voarem pelos ares. Depois saiu correndo pela porta dos fundos, enganchou na primeira turista que passava e fugiu para um exótico país do Terceiro Mundo, bem longe da polícia.
Com assim, ele é francês? Como assim, vota no Chirac? Mentira. Tudo mentira e você não enxerga. Dia desses vai acordar no meio do deserto, dentro de uma tenda fedorenta com mais vinte prisioneiras. E aí? Aí acabou, minha filha. O resto dos seus dias num harém. Justo você, que tem mania de feminismo. Eu vou morrer de rir, sabia?
Você foi pra Tóquio e me arranjou um chinês que diz que é dono de uma enorme tecelagem, quaquilionário, o próprio imperador de Xangai. Nossa, precisa ser muito imbecil pra cair nessa. Não está vendo a pinta do sujeito? Os ternos que ele usa? E a perfídia oriental, hein? De onde você acha que ele tira essa grana? Vendendo roupinhas no Bom Retiro? Mas quanta ingenuidade! Grana desse jeito, sua tapada, só um tipo de gente tem. É. Isso mesmo que você está pensando. Ópio ou heroína, se quer meu palpite. Esse DVD novo que ele te deu, cheio de botõezinhos luminosos, foi pago com a ruína de milhares de viciados. Isso não te dói na consciência? Você não tem moral? Pense um pouco no que anda fazendo com o rei dos palitinhos.
E o radinho de pilha que te dei? não vale nada?
Você foi pra Fortaleza e voltou com caixas de camarõezinhos, mais um baiano cheio de sotaque carregando suas malas. Um desses que chama todo mundo de "meu rei". Mas ele não me engana não. Já vi esse cara por aqui. Quer saber - nascido e criado em Guarulhos.
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