Clube Caiubi de Compositores


Francisco Moura Campos é de Botucatu, SP. Engenheiro?
- Pouco... ainda que a USP (São Carlos).
Poeta mais. Sete livros: O Sorriso do Drama (Maasao Ohno/ Roswitha Kempf, 1980), Brejeiro (Scortecci, 1985), Canção (Metrópolis, 1986) Museu de Mariana (Scortecci, 1990), Itinerário Enternecido (Scortecci, 1991), Arroz com Feijão (Scortecci, 1992), Outdoor (Scortecci, 1994).

ÊXTASE

Não seria a contemplação no banco do Jardim Botânico
A evocação de Mário de Andrade
A magia de Chaplin.
Nem os volumes percorridos na noite anterior.

Havia de ser a música barata que ouvi quando ia para o trabalho.

Surda, ela vazou-me o estômago
Sorriu nos olhos
E inundou a vida corriqueira, a fala dos companheiros de escritório, os números, a máquina de
[ calcular.

Inundou tudo.
Parou tudo.

ORAÇÃO NO REINO DE NOSSA SENHORA DO CIMO DA SERRA

Nossa Senhora
do Cimo da Serra
quero o fervor
e as preces do povo
que abençoais
nas capelas simples
do Vosso Reino.

E moças bonitas
me trazendo os beijos
que não encontrei
escalando morros
patinando escarpas
do Vosso Reino
Nossa Senhora.

Quero Mariana
me dizendo os versos
que em vão procurei
nas gargantas fundas
de águas sonoras
do Vosso Reino
Nossa Senhora.

Quero me iludir
me deitar sereno
na verde candura
—de esquecimento!...
do Vosso Reino
Nossa Senhora
do Cimo da Serra.

VENTO SERRANO

Que vento uivoso
Vai varrendo siglas
— as siglas bancárias
E outros enigmas
Que o homem pregou
Por entre florestas

Que vento soprano
Vai espalhando signos
Distribuindo o pólen
De puras palavras
— Enternecimento
Provindo das flores...

Vem vento uivoso!
Vem vento soprano...
Vem vento celeste!....
Vem — vento serrano.

O LOUCO

Em plena Avenida Angélica
A vala de esgoto aberta exalava um fedor intratável.
O louco fumava um cigarro.
O louco espantava o mau cheiro
A brasa tocando os lábios.
O louco dançava um tango
Fremia gozava
Esbaforido em fumaça.
O louco entendera a vida
— Baile sem nexo —
Mas com que ritmo
O louco dançava!

O louco prenúncio de vida
Insuspeita — desfeito —
Dançava um tango.

Chovia.

AMOR PERENE

I

Foi meu amor
Frágil, disperso.
Foi meu amor — perdoai.

II

Foi meu amor
Fraterno, então. Mãos
Estendidas para o próximo.

III

Foi meu amor
Viril, depois. Tocha
Ardendo em praça pública.

IV

É sempre o mesmo amor —
Hoje editado. Fruto
Que ofereço a todos.

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