IEDA ESTERGILDA DE ABREU. Escritora e jornalista, cearense radicada em São Paulo. Há tanto tempo estou aqui, nesta cidade de todo mundo, acho até que minha cidade de origem também está aqui, pelo menos eu sinto quando passo em certas ruas de casas, certas esquinas, no mar de Santos, de São Sebastião, no contato com pessoas. Não sinto saudade do mar, nosso litoral é tão vasto e o mar está também dentro da gente.
Livros publicados: Mais um livro de poemas (co-edição com Imprensa Universitária do Ceará, Fortaleza, 1971); Grãos –poemas de lembrar a infância (Massao Ohno Editores, São Paulo, 1985); A véspera do grito (Editora COM-Arte, São Paulo, 2001), O jogo do ABC, infantil (Fundação Demócrito Rocha, Fortaleza, 2001); Rolando Boldrin, Palco Brasil (organizadora), Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2005. Crônicas publicadas no Jornal da Tarde (1994-95-96), revista Caros Amigos; verbete no Dicionário Crítico das Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, Escritoras Editora, São Paulo, 2002.
AFINAL
O que é? Um homem, uma mulher?
Um peixe, uma pedra, uma colher?
É o começo, é o fim?
É meio, é margem
é bom ou ruim?
Que estado é esse, que nação?
É sólido, é direito, é protesto
ou apenas uma canção?
Quem chegou, quem abriu a porta?
A mão, o vento?
O que aconteceu com o pensamento?
PARA UM REI
O sol e eu nos encontramos na manhã
Eu de frente pra ele
Ele dentro de mim toda.
Olhos fechados, entrei
na sua incandescência
ele cobriu-me de calor.
Abri todos os poros
e passeei deliciada nas suas quenturas
ele parecia sorrir de tanto poder.
A MASSA
São os desconhecidos diários
caras, pernas, bundas e olhares se cruzam
nos caminhos do labirinto.
São as multidões
o medo do tempo
o medo da fome
o medo da dor.
Somos tantos que nos confundimos
paralelos ao incerto rio
incerto desaguar.
NADICES
Brinco com a razão
não tenho idade nem sexo
o real é invenção
já foi e continua sendo
nada.
Não perco o senso
sou o que penso.
BIOGRAFIA
Um trem passava perto do lugar onde nasci
o primeiro choro confundiu-se
com o apito da máquina chegando na estação.
Cresci na beira do mar
tive estrelas nas mãos, e as do céu
deixei que brilhassem sobre minha cabeça.
Meu pai era marinheiro, trazia doces do cais, lenços
para minha mãe e notícias da guerra
ouvidas da boca dos homens louros.
A guerra acabara e estávamos todos salvos
do lado de cá.
Hiroshima e Nagasaki agonizavam longe.
Vi a seca no sertão
o vento quente entra nos alpendres das fazendas
impede o sono, levanta poeira nas estradas
povoadas de fantasmas da fome e da sede.
A seca entrou em mim pela sola dos pés.
Vivi em casas de dormir
cidades de aprender
de estação em estação, prossigo
na rota do planeta ser.
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