
O cearense-paulistano, Léo Nogueira, 35, é compositor-letrista, escritor e (dizem as más línguas) poeta. Atualmente, quanto não está correndo atrás de pagar as contas, dedica-se a expandir sua contribuição nas artes.
Chegou a escrever artigos para alguns jornais culturais (que, para não falirem, desobrigaram-no do encargo), e tem procurado alguma editora louca o suficiente para lançar seu segundo romance, já que o primeiro foi um sucesso entre os que o leram (ele e as latas de lixo).
Como compositor, participou de vários festivais pelo Brasil (mesmo sem acreditar na existência deles) e chegou a vencer alguns. Tem canções gravadas por diversos artistas da nova safra, além de parcerias com nomes consagrados e emergentes do cenário musical, tais como. Vamos pular essa parte para não ferir egos. Mesmo porque Nogueira já computou 70 parceiros, e não caberiam todos os nomes aqui.
Como poeta, participou do Concurso Literário 500 Anos de Poesia, realizado em Porto Alegre-RS, do qual recebeu a Comenda 500 Anos Poéticos Brasileiros e teve editado o livro de poesias “Antologia 500 Anos”, pela Shan Editores, no ano de 2000. Livros pelos quais pagou e que estão devidamente empilhados em uma caixa.
Foi figura importante no popular Samba da Bênção, projeto realizado em 2002 no Teatro Arthur Azevedo, que homenageava, semanalmente, os mais variados compositores da história do samba. O projeto diferenciava-se dos demais por reunir música, teatro e poesia num só espetáculo. Nogueira participou do projeto como palestrista, fazendo intervenções entre um samba e outro para contar peculiaridades sobre a biografia de cada compositor (por incrível que pareça, essas peculiaridades foram arduamente pesquisadas, e não inventadas).
Nos anos de 2002 e 2003, viajou por diversas cidades do Japão, na função de diretor musical, holding, cantor, carregador de violão e marido, nas turnês de lançamento dos dois CDs de Kana, que fez mais de 50 shows em seu país.
No segundo semestre de 2004, sua valsa “Raízes” (parceria com Kana), foi a canção-tema do documentário “Watashino Kisetsu” (Minha Estação), do diretor Shigeru Kobayashi, que venceu o Festival de Cinema Mainichi Shinbun, o mais importante do Japão. Para isso, seu nome não constou dos créditos.
É membro (do segundo quadro, claro) do Clube Caiubi de Compositores, com sede no bar Vila Teodoro, onde se apresentam compositores da nova geração, e que tem a curadoria de Zé Rodrix.
No final de 2005, juntamente com Álvaro Cueva, Marcio Policastro, Kana e Ale Cueva, montou o grupo 4+1, que vem realizando uma série de shows em São Paulo, sempre privilegiando um repertório autoral. Nogueira é o +1 que não sobe aos palcos, para a alegria dos demais.]
DEUS
Escrevi esta letra sobre música de Flavito Guerra, no dia em que o papa Bento XVI assumiu o papado. Por uns instantes, imaginei-me em seu lugar, sendo eu.
BENTO
No céu é santa toda ceia
Cá embaixo a fome é atéia
Do céu, a Terra é explosão
E daqui o céu é só platéia
Que não ouve oração
No céu não tem chão
E eu sou grão de areia
No céu um deus nos abençoa
Cá embaixo só cai garoa
No céu não pousa avião
E aqui a gente não avoa
Não tem comunicação
É dele a bênção
E eu sou só uma pessoa
Eu quero meu paraíso no chão que piso
Morder a maçã e ser meu juiz
Meu juízo
Quero escolher meu caminho, qual passarinho
Meu ninho, meu pinho, meu bem querer
E meu vinho
Não quero crer num deus
Que mora, só, no céu
E não atende o telefone
Eu quero um deus dos meus
Pra me tirar do breu
Nas noites quando choro insone
AMOR
Um dia, meu amigo Madan dirigiu a mim uma pergunta que não é das mais fáceis. Perguntou-me o que é o amor. Respondi-lhe por meio dos versos abaixo. Versos esses que acabaram sendo musicados por ele.
O AMOR E OUTRAS INUTILIDADES
Eu não sei nada do amor
E o amor, de mim, não sabe
Pra quê ele serve? Onde vou pôr,
Se não me ferve e não me cabe?
Se tem alguém aí, me salve!
Não tá nos livros da estante
Não tá na net ou no mercado
Não tá no corpo da amante
Se tava aqui, eu fui roubado
Quero ao amor ser condenado!
Será uma invenção de Deus?
Mas, se até Deus foi inventado?
Será que nasce com o adeus?
Estará longe ou do meu lado?
Se ele é um vício, eu tô curado!
De que me adianta saber tudo,
Fazer canções, ser bom amigo,
Se meu coração vive mudo
Não fala aos outros, nem comigo
Quero sentir, correr perigo!
Não me disse o psiquiatra
Não li na bula do remédio
O tiro saiu pela culatra
Se era amor, se tornou tédio
Plantei uma flor, cresceu um prédio
Se não o descobrir, eu morro
Só aprendi a sentir dor
Em vão eu grito por socorro
Alguém me ame e, se não for
Amor, me ame por favor!
Se tem alguém aí.
LITERATURA
Ao terminar a leitura do excelente livro de poemas de Lúcia Santos, "Quase Azul Quanto Blue", fui acometido por esse jorro de idéias, que não sei se posso considerar poesia. No entanto, é dedicado a ela.
LIVROS
Gosto de livros
Gosto de livros que leio de uma sentada
Que me derrubam como uma cacetada
Gosto de livros que demoro a ler
Que sabem esperar
Gosto de livros que nem preciso de ler
Pra saber que gosto
Gosto de livros e do cheiro de livros
Perfume que nos penetra pelo nariz do cérebro
Gosto de livros virgens, raros, comuns, manuseados,
rabiscados, sagrados, profanos, profanados, rasgados,
sebosos, eróticos, infantis, filosóficos, técnicos,
tolos, didáticos, poéticos, livros que fazem apenas
passar o tempo, livros com gravuras, livros graves,
livros de capa-e-espada, livros sem capa.
Enfim, gosto dos livros porque são livres
E gosto do livre-arbítrio de escolher lê-los
Gosto tanto de livros
Que, aos ruins, perdôo
Já os ótimos. acho-os imperdoáveis
Gosto de livros que se cometem, se metem, se
intrometem,
Que não se medem pela lista dos mais vendidos
Gosto de livros a tal ponto de nem saber mais
Se quero terminá-los ou continuá-los indefinidamente
Eternidade afora
Gosto de livros que me tocam
Gosto de livros pra dormir
E de livros que me tiram o sono
Mas, sobretudo,
Gosto dos livros que me lêem
POESIA
Não venho da escola poética. Minhas influências na escrita são todas lítero-musicais. Por isso, costumo ficar incomodado quando me chamam de poeta. Por conta disso, fiz a "poesia" abaixo.
POESIA
Eu não faço poesia
Eu só sei fazer rascunhos
Faço versos à sangria
Com os punhos
Eu não faço poesia
Eu só faço controvérsia
É o extrume que sacia
Minha inércia
Eu não faço poesia
Só recito o que posso
Palavrão, ave-maria
E pai nosso
Eu não faço poesia
E isso não me envergonha
Cada um sabe a valia
Do que sonha
Eu não faço poesia
Poesia não existe
É só a hemorragia
De um deus triste
Não me chamem de poeta
Esse não é meu ofício
É apenas a muleta
De um vício
O que falo não se escreve
O que escrevo, não devia
E se ouso, me releve,
Eu não faço poesia
SEXO
Falar de sexo ainda é tabu para a maioria das pessoas. Setimo-nos presos a um comportamento "pecaminoso" mesmo quando o fazemos. É da nossa cultura. E assim, esquecemos que é uma necessidade natural, como outra qualquer, e que nossos órgãos são apenas ferramentas
nesse ato de criação ou de simples prazer. Na tentativa de desmistificar um pouco essa situação,
resolvi homenagear o pau, digo, o pai da criação. Abaixo de Deus, claro. (essa homenagem ganhou melodia do cara-de-pau Rafael Iasi)
O PAU NOSSO
Não me condenes
Sou apenas um pênis
Não penso, só pulso
Sou penso, sou dócil
Propenso ao ócio
Propício, prepúcio
Prótese, clímax
Fênix, pênis
Não me contenhas
Sou um pênis, apenas
Sou denso, sou duro
Sou tenso, sou torto
Profícuo e puro
Vitalício, vigoroso
Rígido, rápido
Glande, grosso
Não me aumentes
Sou um pênis somente
Sou magro, sou gordo
Sem dentes, mas mordo
Engordo e explodo
Sou todo sementes
Grão, pau,
Pão, pai
Não me idolatres
Sou fácil e grátis
Sou feio, sou fraco
Sou filho, sou falho
Cabeça, caralho
Cobiça, cabaço
Sou servo, não falo
Sou nervo, sou falo
Não me condenes
Sou apenas um pênis
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