Clube Caiubi de Compositores


Nilton Bustamante, escritor, poeta, empresário e produtor musical, nasceu em outubro de 1958, na cidade de São Paulo-SP, Brasil. É membro da Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES; participa como convidado no sarau lítero-musical, Livraria Cultura, Shopping Villa Lobos, organizado pelo Instituto Avanços em Medicina; membro do Clube Caiubi de Artes (curadoria de Zé Rodrix), já foi o poeta homenageado do famoso sarau “Sopa de Letrinhas”, desse mesmo Clube. Possui diversas parcerias musicais com compositores do cenário nacional: Sonekka, Alexandre Lemos, Luciana Costa, Leo Nogueira, Rafael Iasi, Sandro Haick, Apá Silvino, Márcio Bragança, Lalo Guanaes, Cristiane Visentin, Nando Távora, Elder Braga, Carlos Ribeiro, Fernando Cavallieri, Daniel Pessoa, entre outros.
Em 1998, foi descoberto pelo escritor Ryoki Inoue do qual recebeu o convite para lançar seu primeiro livro “Retorno” (coletânea de contos), pela Editora Vertente. Esta obra lhe valeu, de forma honrosa, os parabéns de Arnaldo Niskier, então presidente da Academia Brasileira de Letras. Posteriormente, lançou outras obras: “Antes Que Minha Boca Se Cale”, “É Tempo De Se Apaixonar” e o “Canto do Silêncio” (2ª. Edição).

A CAMINHO DOS TRINTA

As palavras saem doces,
Piso em céu de areia,
Estrelas pelo chão,
Restos da noite, tragédia dos anjos, abraço solidão

Converso sublime com outras estrelas
Que de tão longe chegam ao escurecer
Meu coração que já foi firme ganha outra cicatriz
A caminho dos trinta, sou quase infeliz

Quem ainda me chama
Abraço forte ao amanhecer
Piso em homens gentis
Apago vontades em chamas como sempre fiz

Desdenho a fila de marinheiros
Que de tão longe chegam passageiros
Meu coração suportaria qualquer papel de atriz
A caminho dos trinta, sou toda verniz

Uma vem de dia, outra ao escurecer
Somos do mesmo ninho
Somos desiguais, delicadeza, espinho
Uma não discute, é doce, outra é fel
Para uns, sou Ruth
Para outros, Raquel

TRÊS PESSOAS E UMA ESQUINA

Deitar menina, sonhar mulher
E jogar nos canais de Veneza
Bilhete de amor
Pra se transformar em flor

Atravessar na fé a si mesma
Pra se encontrar na virada da vida
Porque até as pedras se encontram na sina
Marcada entre três pessoas e uma esquina

Deitar menina, sonhar mulher
E pela manhã querer saber
Se alguém colheu a flor
E sobre a cama algum bilhete
De amor

AS VISÕES DA CEGUEIRA

Hoje meu filho vai a campo. É o seu primeiro dia na rua. Não está só. Sua orientadora e a bengala branca serão seus olhos; sua visão. Meu filho é deficiente visual; não enxerga nada.
Fico de longe. Acompanho tudo.
Meu coração está entalado na garganta.
Eu percebo sua insegurança.
- Cuidado, meu filho, o buraco à sua direita na calçada - grito dentro de mim, num sobressalto.
Seus passos desorientados procuram novas rotas, tentam chegar à Índia, China, América, Lua... Ficam logo depois da curva da próxima esquina.
Uma mão segura a bengala e a outra busca apoio no ar, no espaço vazio; talvez para ele há algo concreto que o ajuda; certamente a mão de um anjo. A bengala movimenta-se para frente e para os lados, quase sincronizada. A orientadora vai um pouco atrás; séria, diria até pesada no andar, na fisionomia.
Ele está indo rápido demais, observo.
Outro dia ele me perguntou como era a cor azul?
Levantei-o com meus braços erguidos em ângulo reto e corri pelo quintal de casa. Disse-lhe depois que a cor azul é a cor do céu, onde os pássaros voam sentindo a mesma sensação de frio na barriga como ele em meus braços a sustentá-lo no ar da liberdade.
Hoje pela manhã, antes de vir ao Instituto, tenso, ele me confidenciou que precisava muito do “azul”.
Oh! Meu Deus! Ele acaba de cair. Minha lágrima cai junto. Aquela imagem terrível, vendo meu filho no chão tentando se erguer, parte meu coração em milhões de pedaços.
- Levante-se, meu filho, se não vamos ficar juntos caídos - outra vez grito em silêncio.
Ele é perseverante.
Sua imagem, sua fisionomia, fica ainda mais inocente, ainda mais frágil. Não sei como pude tirá-lo um dia do meu colo.
Quando eu quero ficar com ele, só com ele e entrar em seu mundo converso com os olhos fechados, ou se noite apago as luzes e passo a “enxergar” as mesmas coisas, parece que o diálogo se torna fácil, pois compreendo melhor o que ele diz nesses momentos.
E lá vai a bengala, sua espada, lutando contra a noite; o escuro que antecede a descoberta da luminosidade. Cada obstáculo desviado, cada passo avante, cada “touché” de sua bengala, um pouco mais de luz para seus olhinhos, diferentes dos meus.
Agora ele está indo bem. Acalmo-me.
Não caiu mais.
A voz orientadora de sua instrutora ecoará em ondas para toda a vida, em seus “labirintos”; a mão de seu anjo o manterá equilibrado. Nas vezes em que caiu, meu filho aprendeu as diferenças entre ser confiante e em pé nos caminhos da vida ou se esparramando em obstáculos professores.
Vejo seu cansaço provocado pelo esforço, mas percebo um ar de felicidade indisfarçável.
É interessante conhecer as cores por “dentro”. Na escuridão, na ausência de luz, pode parecer imponderável. As cores não são só perceptíveis com o calor, ou ausência, que emitem. São mutantes. Vão criando vida e formas que dão idéia não da pigmentação, mas sim da “vida e movimento” que produzem.
Semanas atrás, meu filho, anjo de Deus que agora “voa por instrumentos”, correu de mãos dadas com sua mãe e eu num campo plano e gramado. Corremos, corremos, o mais que pudemos. Ríamos crianças livres e depois nos abraçamos num abraço triplo e assim permanecemos nos beijando felizes. Minha mulher pegou nas mãos de nosso filho e pousou-as em suas próprias faces e disse-lhe: - Percebe este calor? Esta agitação? Esta, meu filho, é a cor vermelha que está agora em nossas faces. E assim foi para cada cor, um exemplo cheio de vida e tato.
Eles estão voltando, a instrutora, meu filho e seu anjo. Deram a volta ao quarteirão. Foi a primeira vez dele, desta maneira.
Não são só os olhos que conseguem ver, o meu coração de pai está vendo o meu pequeno que se agigantou pela sua vitória particular, silenciosa. Eu estou vendo, estou vendo, meu filho está agora todo “azul”.

DE PLANETA EM PLANETA

Quando passei pelo planeta das Flores,
estava com meu livro da vida, reparando página por página,
tudo aquilo que pesava à minha consciência...
Tudo era tão colorido, perfumado, tanta paz... Por onde a visão chegasse.
Ao final, livro amplo, meu espírito descansado, refeito, das andanças anteriores,
levaram-me aos pés de Deus. Pedi uma nova tarefa e forças:
trouxeram-me para visitar um planeta, outra nave-escola,
já conhecido por mim: Terra.
Fiquei deslumbrando aquela Engenharia Divina, tão espetacular,
tão envolvente, tão pulsando vida... Não pude agüentar, orei.
Meu pedido de uma nova missão para semear o amor, foi atendido.
E vim poeta para amar.

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Simone Teixeira Comentário de Simone Teixeira em 15 outubro 2008 às 22:37
Ah! Se quiser conhecer meus textos, tenho um blog: simoneteixeira.wordpress.com
Será um prazer receber sua visita!

bjo
Simone Teixeira Comentário de Simone Teixeira em 15 outubro 2008 às 22:36
Olá Nilton! Parabéns pelos seus poemas! Sou do SOPA também e, olha que coincidência bacana: muito amiga da sua sobrinha Renata. Estudamos juntas no Santa Marcelina. Não sei se você lembra, mas na minha estréia a Renata foi prestigiar... Caminhos que se cruzam... Essa é a maravilhosa vida! Um beijo.

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