
Rebecca Navarro Frassetto, publicou seu primeiro livro de poesias, Ensaios Sobre a Terra, em 2001. Por ser uma obra independente bateu em algumas portas até que numa das primeiras conheceu o fotógrafo Eduardo Barrox e a estilista Lilian Alves com quem passou a editar o Jornal da Praça, publicação voltada para a celebração de arte e cultura com distribuição gratuita a partir da Praça Benedito Calixto - SP. É integrante do grupo Andarilhos das Letras e do tablóide Café Literário. Participou do projeto Poeta On the Bar, idealizado pelo poeta Nanno Giganthi, com algumas apresentações no Clube Caiubí abrindo assim as portas para o Sopa de Letrinhas no qual esteve presente desde o ínício. Atualmente participa do Jornal da Praça com colunas sobre política que quase sempre acabam focando a corrupção, tema que também adotou para seu blog "A Saideira". Tem diversos projetos que de vez em quando saem da gaveta, como a exposição "As Curiosas" que em 2007 esteve em cartaz no Beatinik Blues Cafe. Pretende lançar mais livros de poesias, contos e romances ainda nesta vida. Até porque não acredita em outras.
I
Senhor
Traga um copo de uísque
Para me fazer lembrar do que não sei
Um copo bem grande de uísque
Sem gelo
Para aliviar as dores que não tive
a ressaca prolongada
o susto de oito minutos atrás
Depois, traga outro copo de uísque
Para um trago sincero
Que me fará chorar de alegria
Celebrar outras eleições diretas
Eleger mais um fracasso da nação
Senhor
Não demore em trazer mais dois copos de uísque
Porque uísque cai bem nas palavras
E em bocas secas
Que me farão amar mais do que seria possível
Mais do que há oito minutos
Por isso mesmo, sir
Não pare de trazer copos e mais copos de uísque
Porque pode ser que não amanheça
Antes que eu descubra
Porque tanta gente se mata
Sem conhecer finais de tarde
Que quase sempre se escondem
No fim do mundo
Que nunca chega
II
Vai ver é por isso
Que eu te espero
Numa noite
Sin luz en la calle
A gente se larga
De corpo na beira
da esquina
E esquece de dizer
Que ela escurece
Vai ver é por isso
Que meu corpo fica vagando
Va-ga-bundando
A espera do teu beijo
Já que não dá mesmo
Pra sentir o gosto do meu
III
Deve haver um coração
Que não para de chorar
Porque as costas
Não deixam de doer
Os remadores não param de remar
E as flores andam
Podres demais
Deve haver um coração fodido
Porque as manhãs deixaram de existir
E os filhos da puta
Ficam batendo na porta
A boca anda amarga demais
E as balas são todas de prata
Há sim um coração doente
E costas que não param de sangrar
Porque as virgens
Andam gozando
O sangue podre
Estancou na meia-calça
E a meia-noite
Parou numa tarde vadia
O veneno não faz mais efeito
O orvalho virou escarro
E a morte deve ser boa demais
Há algo de morto nas costas
E também no coração
Ou isso é coisa dos deuses
Ou é esse salto alto
Que já pisou demais
Em nós dois
IV
Amanheceu no novo dia com imperfeições lapidadas, cabelos compridos, lábios mal traduzidos em incertos dialetos sussurrados no acaso, (se por acaso vieres no novo dia, my love, traga flores dobradas em gestos mal pagos) em tragos sinceros escritos às avessas, in versos sepultados sem palmas, incertos penteados encerrados na nuca, a confusão do novo dia ao toque do vale, desenhada nas margens promíscuas, (presa a toa nos dialetos mal decifrados) nua no respingar do sol em cortinas de seda, visão imperfeita dos amores casuais tal como as passagens secretas revelam o novo dia que te persegue e espalham no vento todas as palavras que te escondem.
VI
Faz brotar da face
A morte certa
O último traço
Dos jardins de papel
Semeia tardes
Tranqüilas em fogo
Desaparece, imune
a tempestade
Ergue a cara
A tapa
Desliza a lágrima
viva
Amanhece
aos poucos
em cores entregues
ao vento
Desperta invencível
Qual o sorriso
Da mais bela
das cerejeiras
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