Clube Caiubi de Compositores

Solange Mazzeto,atriz, poeta, fotógrafa amadora e letrista, começou sua carreira com teatro amador e se profissionalizou como atriz. Sempre amou escrever e faz disso hoje sua grande arte, na busca de engrandecer sua alma e de quem a lê.




CORPO

[poema feito exclusivamente para a homenagem
que o Sopa de Letrinhas recebeu no Espaço Cultural
do Metrô Santa Cecília]


tão somente
o corpo
dançando a seus olhos

e como bailam
as pestanas
e a íris... tua

em vôo livre
liberto a estranha criatura
que te possui

na cama?

ah! amor
na escadaria do metrô

você vem?






Abraços feitos


costas dadas
afago na virilha

nome meu
na boca tua

saciado momento
abraço

lambo cada reflexo

gota d’água

o corpo
dobra

assanha
arranha

na minha penugem
enobrece teu manto
de abraços feitos






Verdades embutidas

sento bem
nua

pernas abertas

boca bem
suja

espio pra dentro
me vejo esperança

respiro veneno
expiro ar puro

e penso [perigoso isso]





Água

um paladar líquido
uma blusa que escorrega
sede
um gemido
[em um 'q' de urgência excitada]
frio na barriga
absinto



MANIAS

ciladas vazias
abrir a porta
caminhar na rua

ver o som
que faz meu pé

caminhar sozinho
burlar o Graal
ciscar no fundo
sem sinal

ver brilhar o escuro
te falar baixinho

velar seu medo
levantar bem cedo
macular [meu] segredo



O Cume

desordem
acúmulo de líquido
um peso que pesa
e cansa

nado até o ponto alto
escalo montanhas de vidro
meus pés descalços doem
e sento

trafego por sinais vermelhos
a rua desliza sob meus dedos
o parafuso desparafusa
e cedo

volume
e a distância dá medo
o sonho morreu
e o perfume venceu
...
e tudo ficou negro
...
no cume de nós mesmos
...



Seus Olhos

seus olhos como dois lagos sinistros
me abriram um caminho
entre a loucura e a glória

você [me] tendo na graça da vez
no som da vida
no perfume de toda hora

sexo, imensidão de nados
braços se misturando
numa viagem lúdica

risos vindo de tua boca
me caiam como manto
a vida rodou

minha saia subiu centímetros do chão
seus olhos disseram tudo
e tua voz ficou sem fim
[bem dentro de mim]



SENTIMENTALMENTE

chorei de lágrima ao pé
sofri que nem piolho no zé
pulei corda
sentei na ponte
e olhei o céu e o monte
vi você ali arremessado
amassado
entupido de cigarro
vi a lua toda nova
caiada de cal
pra desinfetar sua vida sem sal
desembrulhei meu presente
lindamente-sentimentalmente
me vi linda
sem roupa, louca, atirada ao mar
arrepiada, deliciosamente livre
sem corrente, sem algema [só se for aquela de brincadeira...]
subi mais alto, apanhei a estrela que estava pendurada na lua
desci pra rua, peguei a pele de estola[nova]
a meia de seda joguei na história
sapatos de salto
cabelos ao vento
ombros aprumadinhos
olhar de garça
de graça
e rumei... pra dentro de mim, outra vez...


GENTE

um oceano
um grama de euforia
tequila
bandeja de plástico
resto de lixo
foguete na lua
é o bicho pegando fogo
o rabo da polícia
um tiro na idéia
é a pinga, a "mardita" cachaça entupindo “as artéria”, mas dando vida
é o churrasco da esquina
a meia do vizinho...é
a barata debaixo da pia, fazendo ninho
estranho mundo de lixo
olho vazio
pés descalços no farol, criança comendo pizza no saco
que saco!
é muito sal na rua
é muita fumaça, dizendo... e aee tio?
gente aos montes, gente...
ainda se é... gente.

ALÇO

alço vôos íngremes
tempestades me livram dos raios
a estrada é linda
[olha lá... tem flores em cores]
o arco-íris me pegou de raspão
arrancou meu bigode fujão
a cera líquida escorre e solto um palavrão
vôo e sonho
ou sonho e sobrevôo
qual nome tenho hoje?
já não sei...
tem dias tão claros
tem lagos tão rasos
e tem um eu a ficar aqui
parada, sem pensar em nada
curvo a boca num sereno sorrir
o coração bate num [quase] eterno existir

SIM

sim, eu deixarei viver o instante de tua boca
na minha boca e de minha boca a tua boca
constantemente
deixarei que me leve do paraíso a terra em segundos
...dias, meses e anos...
enxugarei alguma lágrima tua que porventura venha parar em meu colo
te levarei às nuvens
caminharei contigo na espuma cálida da noite
e deixarei livre meu pé pra voar até ti
as brasas do inferno congelarei em túmulo, com a inscrição ‘aqui jaz o medo’
fincarei a bandeira da paz em teu e no meu coração
porque de mãos dadas olhando as estrelas que se firmam no céu em dádiva
está escrito em linhas douradas, um tanto comedidamente tortas
que, a alma, nossa, é una

AMOR & DOR

quando te vi
te amei, revirei
me perdi
e me vi sua
me vi nua em seus braços
alerta em cada traço
despida de todo laço

a vida continuou lá fora
a chuva caiu
o sol voltou em cachos
a magia da luz do alvorecer nunca foi tão divertida

te amei, mais do que fui forte

mas... tudo acaba
e cada dia mais, quero isso
que morra esse amor
que acabe, pra que eu possa respirar sem dor

FIOS-SOL

Faça...
...um sorriso estrela cadente, uma brejeirice, uma mão no ar, desenhando luas...
Dispare em sua mente quilômetros pétalas
Sinta insuflar a cor mais conquista
Resista à tentação que lhe faz mal (cada um tem a sua)
Varra teias do coração que desarrumado ruma ao muro
Atente a expressões que duram o tempo que durar
Vasculhe em seu colo um cafuné repolhudo bem doce
Pegue canetas tinteiro e passeie no coração manteiga
Espaireça numa rede nuvem
Sossegue enrolada em fios-sol
Deslize em sonho e na fantasia deite
Role a cabeça lado poente
Fiquei firme só enquanto ‘agüente’
Ame contente com asas calientes
E na rubra voz do dia que amanhece e se finda cante a canção em toda gente

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Celino Leite Comentário de Celino Leite em 23 outubro 2008 às 14:19
Muito legal.

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