Clube Caiubi de Compositores

Cesar Luiz Veneziani nasceu em 1958 na cidade de São Paulo. É Operador de Reator Nuclear e Geógrafo com especialização em Antropologia. Esta sua formação, a princípio antagônica, evidencia sua visão ampla das coisas: é a convivência do técnico com o filosófico, do objetivo com o subjetivo, do real com o imaginário, com claros reflexos em sua poesia. A partir de 2005 dá maior ênfase no ato de escrever. Paralelamente passa a ler e reler os grandes clássicos da poesia, buscando conhecer forma e técnica.
Em 2008 começa a freqüentar o Grupo de Criação em Poesia “Rascunhos Poéticos” onde conhece poetas já experimentados que o estimulam tanto na criação quanto no aprofundamento do conhecimento das técnicas da escrita em poesia. Passa então a freqüentar cursos no Espaço Haroldo de Campos (“Casa das Rosas”) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Na mesma época, entra para a Comunidade “Bar do Escritor” e inicia sua participação nos saraus “Politeama” e “Sopa de Letrinhas”.

Nos endereços eletrônicos abaixo, podemos encontrar mais a respeito de seu trabalho e do ambiente que o gera:

http://cesar.veneziani.zip.net
http://rascunhospoeticos.blogspot.com
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=3891757
http://politeamasarau.blogspot.com




Eterno outono

ver as palavras murcharem
feito flores
ver os atos voarem
feito folhas
ver a solidão se espalhar
feito galhos
ver a indiferença se sustentar
feito tronco
ver a esperança apodrecer
feito raízes
ver a vida se acabar
feito eu




Lucidez e loucura

Adoro a lucidez da tua loucura,
imploro a insensatez de teu pensar.
Instiga e questiona o teu olhar,
mastiga e aprisiona a alma impura.

Na paz em crise onde árdua segue a luta,
me apraz a triste fé no esperançar.
Avanço o passo manco ao caminhar,
me canso em ser mutante pela muta.

Te vejo no futuro que componho.
Meu beijo vem do puro encantamento,
suave e maleável, é cimento!

Tal ave, insuperável voo noturno,
aos pés meu coração é taciturno.
Tu és a perdição em carne e sonho.



Minha treva

No escuro de um subsolo úmido,
no coração de uma caverna abafada
ou deitado na cama, luz apagada,
busco o vazio, o nada
a igualar passado, presente e futuro
de uma existência nula.

Mas o luar invade meu refúgio
e teima em emporcalhar de claridade
minha paz, mesquinha e lúgubre
que, em júbilo,
vê os sonhos apodrecerem...

Venha, nuvem de tempestade,
ser o escudo protetor
que traga de volta minha treva.
Não quero a harmonia de doces horrores
ser invadida por este luar
que traz a luz do fogo do inferno da esperança.
Prefiro o calor da decomposição,
o diálogo com os amigos vermes,
o doce som das certezas se desfazendo,
a estabilidade do nada que sempre perdura...







Razão X Sensibilidade

A lógica é quem gera meu destino,
regula e organiza o pensamento,
transforma e quantifica o sentimento,
enquadra como falha o desatino.

Mas o vulcão rompe a crosta,
emperra a máquina,
embaralha as cartas
e faz brotar lindas pedras
nos jardins do nada.

No caos que nesse instante então se instala,
o auxílio da razão me vem ligeiro.
Desfaço a confusão e, de primeiro,
retorno a um viver que não me abala.

Morangos que sangram,
sóis e luas que se afogam no horizonte,
o ar que os pulmões mastigam e cospem,
o beijo nojento e salgado,
a esperada manchete no jornal das sete,
o tic-tac dos segundos na torneira que não se fecha...




Porto

sou barco que flutua
barco que se constrói
barco naufragado

sou gaivota que voa
que pousa no cais
que rouba o pescado

sou puta, mulher à toa
que se ignora, se corrói
nem presente nem passado

sou reflexo da lua
na noite que já foi dia
sou sol do outro lado

sou espuma que não se situa
nem sou mar nem maresia
nem sou terra, desterrado

sou mensagem obscura
em garrafa contida
sem rumo determinado

sou vela que se fura
motor sem partida
remo jamais remado

sou verso que procura
autor nesta poesia
porto que não rimado



Aço

Sou a imagem do estio.
A inércia é que me move.
Não faz calor nem frio:
chove.

Meu interior sombrio
repele o que me envolve.
Nem a cheia do rio
solve.

Isso terminaria
com um único passo
da lâmina mais fria:
aço.

Mas minha covardia
leva ao papel e ao traço.
Daí, então, poesia
faço.



Meu momento

C
om calma, bem tranquilo levo, a vida!
E
a alma faz aquilo que apetece.
S
ou livre no pensar ou numa prece,
A
ntítese a amar sua ferida.

R
imando som alegre, alma contida,
V
oando ao vento leve e sem estresse,
E
m verso que hoje fiz como quem tece
N
o verso de quem faz vida sofrida.

E
ouvindo o doce som do sentimento,
Z
unindo à posse então deste momento,
I
mploro a permanência do querer.

A
doro a negligência do passado.
N
o túmulo, bem fundo, está enterrado.
I
ncrédulo, meu mundo hoje é prazer.

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