
Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor. Nasceu em São Paulo, em 1940. Publicações mais recentes, Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004); Volta, narrativa em prosa (Iluminuras, terceira edição em 2004); preparou Lautréamont - Obra Completa - Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas (Iluminuras, nova edição em 2005) e Uivo, Kaddish e outros poemas de Allen Ginsberg (L&PM, nova edição de bolso de 2005). É autor de outros livros de poesia e da coletânea Escritos de Antonin Artaud, esgotados. Consta em antologias e coletâneas, brasileiras e em outros países. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela ligada ao surrealismo e à geração beat. Ocupou cargos públicos em administração cultural. Presidiu por vários mandatos a UBE, União Brasileira de Escritores. Deu inúmeras palestras, cursos e oficinas literárias. Co-edita, com Floriano Martins, a revista eletrônica Agulha, www.revista;agulha.nom.br. Mais informações em: www.secrel.com.br/jpoesia/cw.html.
ANOTAÇÕES DE VIAGEM
1
MEIO-DIA
a Terra respira
formigas transitam por suas nervuras
arabescos de pássaros
pontuam o pausado discurso das nuvens
só existe o espaço
a paisagem lacustre
que agora cobre uma cidade submersa
e sem saber por que vim parar aqui
o que me trouxe a esta fronteira de lugares e sensações
entro n'água
a claridade me leva à deriva
flutuo no amplo
embebido no dia mais que morno
sei-me hóspede de quem tenho sido
(a superfície do lago
se desmancha no movimento dos círculos concêntricos)
2
PRAIA NA ILHA
é assim que eu gosto: ninguém por perto
só o acolchoado de areia macia
estendido entre as dunas
onde o esforço de andar
transforma os passos em gestos voltados para baixo
na direção do caldeirão
onde se debate a fumegante cordoalha
labirinto de convulsões
vazio atravessado por espasmos
novelo de tentáculos de espuma, de correnteza polar
e as mãos de gelo
que apertam a garganta e deslizam pelo ventre
são as labaredas de mar, ganchos fincados nas costas
para nos arrastar ao fundo
– penetrar nesse abismo
é navegar o dorso da morte, transformar a consciência
em pátio de ventanias -
mas, no entanto
não somos daqui
viemos de muito longe
para descobrir a derradeira praia deserta
no costão oceânico da ilha
cercada por muralhas de vento e claridade
onde cobertores de maresia
são estendidos sobre nossos corpos
mansamente reclinados
sobre a pele dourada do Tempo
3
CARTA
Ao artista plástico Elvio Becheroni, a propósito de seu livro Luoghi di Memoria
Você me pede para escrever algo para seu livro de gravuras
quer que fale do Rio de Janeiro
e conte histórias
de lugares e viagens e memórias
talvez
qualquer coisa
como em 1979, eu chegava ao Rio de Janeiro
pelo caminho do litoral, pelas praias da Rio-Santos
trazia no rosto queimado de sol a expressão tranqüila
dos que vivem à beira-mar
qualquer coisa
como aquela noite no alto da Urca
então chamava-se Concha Verde
e antes chamara-se Frenetic Dancing Days
ela tentava convencer-me
de que as luzes da cidade eram olhos dourados que piscavam na neblina
e eu concordava que havia ruídos de mar
ressoando no bojo da nossa loucura
qualquer coisa
como aquele dia inteiro passado a caminhar na praia:
impulsionava-nos certa atração pelo sublime
e nós nos entretínhamos a decifrar a errante caligrafia do tempo
nervosamente rabiscada na pauta das ondas
até que punhais de nuvens arcaicas emoldurando o entardecer
viessem se cravar em nosso infinito
e sentíssemos os cabelos da noite crescerem vagarosamente
pois a escuridão havia chegado
para reclinar-se em seu colchão de maresias
então,
entre a onda e o lampejo da onda
entrevimos o perfil em chamas de nossos corpos
entre o vivido e o não-vivido
o traço cambiante da arrebentação
entre os ruídos do mar e os ruídos da cidade
a complicada geometria de nossos silêncios
e um inesperado perfume de jasmins
por mim
nunca mais sairia dali
ficaria por lá mesmo
para sempre percorrendo a praia
a acompanhar a insofrida inquietação dos astros presos a suas órbitas
mas acabamos nos perdendo
entre redomas de luz amarela de mercúrio
nos confusos labirintos de um jardim
e há tantas histórias a serem contadas
e você me pede que escreva sobre o Rio de Janeiro
mas não existem cidades
são nossas viagens que criam roteiros
– mapas de superfície luminosa como estes em seus quadros, reflexos do céu mais estrelado de Samarcanda, do límpido entardecer florentino, o outono transparente de São Paulo mais a inquietante névoa de Nova York, lampejos dourados de um campo lombardo, seu poente animado pelo sopro da planície
as cidades não existem
só os encontros são reais, as prolongadas conversas
capazes de transformar qualquer lugar em praia deserta ao anoitecer
só existe o diálogo,
nossa primitiva capacidade de nos sentar ao redor da mesa
para atravessar a noite contando histórias
de viagens, descobertas, visões
com a candura de garotos trocando figurinhas
investidos, porém, da nossa identidade de bruxos
fazendo soar seu tambor noturno
sabendo-nos observados o tempo todo, de relance
pelo rosto insone do Belo
4
RUÍNAS ROMANAS
Quantos poetas
já não estiveram aqui
quantos poetas
já não escreveram
sobre a ofuscante aniquilação
diante desses dramáticos perfis minerais
tão próximos da pedra original
do barro anterior à forma
coisas
reduzidas a não mais que montanha
quase natureza
coisas
na fronteira da mão que trabalha, do vento, da água
aqui
ressoam os silvos do vento
aqui
ecoa a ensandecida voz do oco, do cavo, da fresta
- silêncio matizado de sussurros
e agora
eu também sou um dos que enxergam:
o informe
o monstruoso passado
- foram os escultores do avesso
que as reduziram a isso
os autores
do cruel teorema
que nos condena ao presente
e repete
que nada sabemos, nada vale a pena
pois passado e futuro só existem
como passo para a informe eternidade
- a custo divisamos lá fora
a realidade logo ali, logo aqui:
outro lugar
onde existiremos menos ainda
nós
é que somos os fantasmas
e a solidez
é o que está aí,
nas ruínas
que não param de repetir
que isto
- NADA -
é tudo o que temos
5
EM TRÂNSITO
quando se está possuído pela tensão romântica
toda viagem é para o Oriente:
o trem de Zurich a Viena, ao entrar no túnel alpino
a chegada entre altas ondas ao porto belga, Ostende pela primeira vez
parecendo familiar por ser o mesmo o vento, a mesma a tonalidade marítima
de que não me lembrava
ou a descida da Serra Gaúcha
até a ponte no fundo do verde
– vertigens reconhecidas
quando todas as palavras servem
para dizer o indizível
quebrar a pedra
permitir que jorre a fonte
(quando se está possuído pela tensão romântica)
6
A CHEGADA
finalmente
em um dia febril como este
sol claro depois da chuva:
eu sou a umidade do ar
sou as cores do ar
sou o horizonte e todas as formas no horizonte
sou uma crista azulada de morros da Serra da Mantiqueira
sou o próprio ar
o som de um sino escondido no vale que logo soará ao longe
sou a terra molhada e as sensações que a própria terra tem por estar molhada
e um jardim, sou o meu jardim
e todos os demais jardins da rua
e a folha que se mexe ao vento
e a chuva e o sol claro após a chuva
e também sou aquela leitura de poemas em um auditório sombrio com umas cinqüenta pessoas extemamente atentas
sou a noite passada e suas vozes
por isso
estou aqui
onde sempre quis estar
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