
Etel Frota é paranaense de Cornélio Procópio, nascida em 1952. Viveu os anos 70 em Londrina e há 27 anos mora em Curitiba.
Adolescente, estudou aquele piano das mocinhas da época, durante alguns anos. Acabou desistindo e foi ser médica.
Clínica Geral atuante – e afastada das lides artísticas desde o desenlace com o piano – aos 41 anos lhe acontece de começar a escrever poemas, compor canções e conceber roteiros para alguns espetáculos musicais, de forma eventual e diletante.
Volta a estudar música, em cursos livres e oficinas no Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba. Em 1997 inscreve três canções com letras suas no II Festival de Compositores do SESC da Esquina. Duas delas são premiadas com o primeiro e segundo lugares. Seu envolvimento com poesia e música se torna público e notório. A médica ainda sobrevive por pouco mais de um ano, mas acaba morrendo de desnutrição.
Desde 1999, atua de forma exclusiva como escritora: poeta, letrista, roteirista, produziu alguns dos espetáculos que roteirizou: “de Ícaros e Dédalos”, “Alphonsus de Guimaraens, o poeta da Lua”, “Alice Ruiz, um Sol maior”. Algumas incursões na dramaturgia - seu texto teatral “Vila Paraíso” já teve 5 montagens em Curitiba desde sua estréia em 2004. Várias indicações (e algumas premiações), em anos sucessivos, ao Prêmio Saul Trumpete – os melhores da música no Paraná e ao Prêmio Gralha Azul, o prêmio do Teatro Paranaense. Como poeta, foi publicada em vários suplementos culturais no Paraná. Em 2002 lançou "Artigo Oitavo", livro+CD de poesia escrita, falada e cantada, com prefácio de Thiago de Mello, concepção gráfica de Paola Faoro e produção musical de Rodolfo Stroeter.
Parcerias musicais: Alexandre Lemos, Angelmar Roman, Ceumar, Claudio Menandro, Consuelo de Paula, Cris Lemos, Davi Sartori, Emerson Mardhine, Érico Baymma, Felipe Cerquize, Felipe Cordeiro, Gerson Bientinez, Guilherme Rondon, Indioney Rodrigues, Iso Fischer, Kim Ribeiro, Liane Guariente, Luhli, Luis Felipe Gama, Luís Otávio Almeida, Lydio Roberto, Milton Karam, Ozias Stafuzza, Rafael Altério, Raymundo Rollim, Renato Lucce, Rosi Greca, Rubens Nogueira, Tato Fischer, Tavito, Zé Gramani, Zé Rodrix. As canções compostas nessas parcerias foram gravadas por Suzie Franco, Iso Fischer, Rogéria Holtz, Lydio Roberto, Liane Guariente, Coro Cabeludo, Mônica Salmaso, Nice Luz, Consuelo de Paula, Nasi, O Tao do Trio, Helena Bel, Ana Cascardo, Bernini, Cris Lemos, Zé Luiz Mazziotti. Uma significativa parte dessa produção de canções está reunida no livro virtual “Lyricas – a construção da canção”, lançado em janeiro de 2007, e desde então disponível para download no site www.lyricas.com.br.
Atualmente, segue trabalhando em novas letras de canção, e nos seguintes projetos: “Cormoran”, romance; “malditos”, texto para teatro; “A menina que engoliu uma estrela”, romance infanto-juvenil, “Santosha”, livro de poesias.
Curitiba(PR), agosto de 2007
Etel Frota
etel.frota@gmail.com
www.individualidade.com.br/etelfrota
www.myspace.com/etelfrota
[AS RIMAS ME NASCEM]
As rimas me nascem
dos intestinos
nunca das gram[aticas
Vísceras estranhas
enigmáticas
parideiras e sintáxicas entranhas
UM OUTRO SOMA
“...o sujeito é um apêndice de seu germoplasma, a cuja disposição põe suas energias em troca de uma retribuição de prazer. Ele é o veículo mortal de uma substância (possivelmente) imortal – como o herdeiro de uma propriedade inalienável, que é o único dono temporário de um patrimônio que lhe sobrevive”
Sigmund Freud
apêndice de meu germoplasma
(matéria prima do vir-a-ser)
cutuco a ferida: dor em brasa
em troca de um instante de prazer
apêndice de meu germoplasma
(metáfora da ressurreição)
resgato da penumbra meu fantasma
e ponho a seu serviço minha mão
veículo mortal da substância
mais que possivelmente imortal
tão somente administro a ânsia
de espiar o outro lado do portal
herdeiro deste inalienável chão
caseiro de um incerto que-virá
vou plantando com o que me sobrou de grão
esta horta que me sobreviverá
[AH, COMO EU QUERIA]
ah, como eu queria
que fossem meus
os olhos que se alinham às estrelas
no campo de girassóis
não importa
antes um poema requentado
que poesia nenhuma
MAIORIDADE
Não te queria, minha poesia
exposta a olhos e dentes
salivas e tesões
São minhas as tripas
que espalhas no morgue
pelos balcões
São minhas as dores
que te afligem
donzelinha meretriz
angores de mãe de noiva
temores de mãe de virgem
pudores de mãe de miss
Enfim,
bates-me a porta
na cara do peito
Ganhas a rua
Despudorada
louca e bela
Furtiva e nua
te espio
pela janela
Pressinto
a madrugada
de te esperar
No escuro
Calada
[A CADA POEMA]
A cada poema
que te brota na alma
e que sufocas
brota uma flor
beijinho
na beira do rio
Vou lá, vejo
e te sorrio
A cada lágrima
que engoles
a cada saudade
de que te distrais
vem uma secura
e teu olho arde
Vem uma quentura
e me embala a tarde
A cada palavra
que me sonegas
um anjo vem
e me sopra a nuca
bem ali
onde nasce o arrepio
Tu te arrepias
triste
de frio
Pois que poesia
saudade
florzinha
e bafo no cangote
vêm a ser
generosidades
da mesma nascente
Brotos tão pequenininhos
quanto subversivos
que se desprendem
e buscam
tinhosos
a egrégora
Passam por aqui
no caminho
Compaixão de tua sina
eterno menino contido
Inútil dedo
na rachadura dos diques
CIRCADIANA
Circulam em mim sete humores
sabores, cheiros e cores
Tem um redondo, doce e cor-de-rosa
que sabe cantigas de ninar
sacia-se na pele macia das crianças
dorme pesado
queima-se ao sol, ri de qualquer besteira
é generoso
leite de peito, florada, saúde
Tem um que é vinagre e fel
Vendetta
...
Tem um que é muito bem comportado
supermercado, trânsito
bons dias!, gentilezas
me ajuda a ganhar a vida
(trottoir da alma)
Tem um que é pura luxúria
língua, tesão, gemido
(e que fica guardado
numa caixinha de veludo vermelho
no fundo da gaveta
no meio de calcinhas cor de champanhe)
Circulam em mim sete humores
mandam em mim, fazem lei.
Uns conheço. Uns se escondem
Sobre estes uns, nada sei
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