
FELIPE CERQUIZE é engenheiro químico. Com forte atuação na vida cultural do Rio de Janeiro, lançou, em 1996, o livro RHUMOR, coletânea de contos e crônicas classificada pela comissão julgadora do PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA no ano de seu lançamento. Em 1999, lançou o CD de MPB chamado LÉGUAS, com apresentação do compositor GUARABYRA. Em 2003, foi classificado em 1º lugar no concurso de poesias da FEUC (RJ) com a obra POEMA TRANSVERSO. Também em 2003, classificou-se em 6º lugar no festival de música popular do CLUBE DOS COMPOSITORES DO BRASIL com a música APÁTICO PACTO, selecionada entre mais de 1600 canções. Em 2005, lançou o livro CONTOS SINISTROS na XII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO, com prefácios de TIBÉRIO GASPAR e de REGINALDO BESSA. Em 2007, foi classificado em 1º lugar no concurso BALADA DO IMPOSTOR, promovido pelo poeta GERALDO CARNEIRO, com um texto sobre a morte de PAUL MCCARTNEY. Ainda em 2007, lançou o livro de poesias CONVERSA RIMADA, em parceria com a cantora, compositora e poetisa LUHLI, livro este premiado pela UNIÃO BRASILEIRA DOS ESCRITORES, em 2008, ano em que também recebeu MENÇÃO DISTINTA no prêmio internacional NÓSSIDE, promovido pela UNESCO, com a “poesia em canção” intitulada A CADA PASSO. Ainda em 2008, teve a sua parceria com Felipe Radicetti, intitulada MEDIDA, indicada para a final do prêmio internacional HOLLYWOOD MUSIC AWARDS, que aconteceu em Los Angeles (EUA).
POEMA TRANSVERSO
Eu quero um poema que valha
Meio tronco inteiro meio maravalha
Que sirva ao ético e sirva ao canalha
Que seja elite e seja gentalha
Com fio cortante como de navalha
Consertando tudo o que escangalha
Capaz de vencer uma grande batalha
Ainda que jogue no solo a toalha
Poema que use o poder da cisalha
Respeitando o gesto de quem achincalha
Que levante a cerca e derrube a muralha
Que colha a fartura e plante a migalha
Que zombe da minha cabeça grisalha
Que ajunte as partes do que se espalha
Que faça a costura do que se retalha
Carnavalizando a feia mortalha
Eu quero um poema que valha
O frio do pólo e o calor da fornalha
O ócio do rico e você que trabalha
Que seja perfeito porque leva à falha
Que permita o novo que permita a tralha
Que siga bem certo fazendo “bandalha”
Que erga e suporte o peso da talha
Forçando o silêncio do homem que ralha
Preciso de um poema que valha
O crime dos justos e a coesão da limalha
Que um dia me leve a Maracangalha
Mesmo que não esteja com chapéu de palha
Que feche o olho que usa cangalha
Que enalteça o verme e a miuçalha
Que mantenha firme tudo que chacoalha
Que una de novo o que se esfrangalha
Daqui a mil anos que seja a medalha
Do ser que ajuda do ser que atrapalha
De quem preconiza de quem avacalha
Fazendo-se probo na mão que metralha
Tão justo e tão torto que enquanto estraçalha
Os planos mais lindos de quem amealha
Permite também o caminho que atalha
A chama dos sonhos de sua acendalha
Felipe Cerquize
COMO NOSSOS FILHOS
Nosso alento é perceber
que apesar dos descaminhos
e do corpo envelhecido
entre mágoas e feridas
ainda temos
um pouco do passado,
ainda cremos
em tudo que era errado.
Há um gume em nós
que não amola
e um outro
que aos poucos nos degola.
No bagaço, a carcaça se arrasta,
disfarçada em um terno com gravata,
procurando ilusões mal resolvidas
que o tempo e o dinheiro apagaram
Se por fora se vê que não fizemos
boa parte de tudo que dissemos,
pelo lado de dentro ainda temos
o lirismo que modifica a vida
Nosso alento é perceber
que apesar dos desencontros
ainda acreditamos que podemos ser
como nossos filhos
Felipe Cerquize
COMO NOSSOS FILHOS
Nosso alento é perceber
que apesar dos descaminhos
e do corpo envelhecido
entre mágoas e feridas
ainda temos
um pouco do passado,
ainda cremos
em tudo que era errado.
Há um gume em nós
que não amola
e um outro
que aos poucos nos degola.
No bagaço, a carcaça se arrasta,
disfarçada em um terno com gravata,
procurando ilusões mal resolvidas
que o tempo e o dinheiro apagaram
Se por fora se vê que não fizemos
boa parte de tudo que dissemos,
pelo lado de dentro ainda temos
o lirismo que modifica a vida
Nosso alento é perceber
que apesar dos desencontros
ainda acreditamos que podemos ser
como nossos filhos
Felipe Cerquize
ESTIMA
Felipe Cerquize
Um lado é uma península
E eu uma ilha
Que o terremoto esmerilha
O outro é um continente
E eu um monte
De onde se avista a ponte
A amizade é o istmo
De uma estima premente
Entre a península e o continente
É o estreito que bate no peito
E une a baía ao estuário
É o delta de um rio imaginário
A MENINA IRAQUIANA
Felipe Cerquize
Todos dias, a menina iraquiana acordava e olhava da janela de sua casa para ver se avistava o pai. Ele saiu numa tarde de outubro, há muitos meses, para servir o ditador. O mundo ameaçava seu país e seu país insistia na sua auto-suficiência, ainda que seus filhos não tivessem mais alimentos, ainda que não lhe fosse mais permitida a venda do petróleo abundante em suas terras.
Parece que Deus definitivamente havia se cansado de suas origens. Por um lado, a carnificina entre judeus e palestinos, de outro, soberanos ditadores que impunham a miséria às suas populações. Em especial, o homem que alguns até arriscavam dizer que havia sido citado em centúrias de Nostra Damus.
Para a população civil, pobre e ignorante, a idolatria por um louco não é coisa de se espantar. O sangue e a alma por uma alucinação. Os ditadores são assim: idealizam um mundo perfeito para os que estão sob seu guarda-chuva e dizem ser capazes da vitória, mesmo quando o óbvio mostra o contrário.
Entre ameaças e contra-ameaças, entre ações terroristas e retaliações, um dia, o mundo ocidental resolveu cumprir suas promessas. Representado pela besta ferida e pelo seu fiel escudeiro, o Ocidente invadiu a antiga terra das mil e uma noites. Mesmo com um dedo de poeira do deserto acima do nariz, o ditador insistia em afirmar que estava próximo da vitória. Os soldados americanos e ingleses, por cada cidade que passavam, defloravam virgens e matavam os que queriam lutar por seu lugar.
Os filhos do ditador não existem mais, o ditador, mesmo que queira, também não. No rastro da destruição, a perda da identidade, o roubo, a violação. A menina iraquiana ainda acorda e olha pela janela de sua casa para ver se seu pai finalmente aparecerá. Olha para a cáfila, mas só avista ilusões. Mesmo que lhe digam “seu pai está morto”, ela não deixará de repetir o gesto até que um dia lhe mandem cobrir o rosto com um véu para que possa servir a um homem e a uma religião.
A MULHER E O DRAGÃO
Felipe Cerquize
Os homens para quase tudo dependem da mulher. Inclusive, não existiriam, se não fosse ela. Apesar de toda gentileza que o sexo frágil nos proporciona, fazemos questão de favorecer umas em detrimento de outras.
A mulher bonita, todos querem. O homem fica na palma de sua mão. Mas e quanto à mulher feia, o famigerado dragão, que a tudo olha querendo o deleite mas sendo ignorada pela população? (ou, no máximo, servindo de referência para encarnação). Passa ao largo, sem que lhe seja feito um agrado, sem que receba um “fiu-fiu” sequer. Sabemos que as mulheres acham ridículo que as chamemos com um “fiu-fiu” no meio da rua, mas os dragões, pobres coitados, sonham com o dia em que isso possa acontecer e, provavelmente, nunca serão chamados assim.
Quero todas as mulheres felizes, desde minha mãe até Mocréia, deusa da azucrinação. Não creio que sejam necessários novos métodos para que aumentemos essa interação.
O interessante é que o homem feio tem muito mais chances do que a mulher nessa mesma condição, talvez porque a masculinidade não esteja associada a um bem-comportado padrão de beleza.
Fica então o recado: na hora em que você estiver a fim de fogo, lembre-se de que os dragões têm muito mais a oferecer.
ADOÇÃO DE POETAS
Felipe Cerquize
Poetas são seres humanos com uma percepção diferente da que tem a grande maioria dos outros seres humanos com os quais convivem. A forma mais comum de se expressarem é através da escrita, mas também é possível vê-los recitando em ambientes públicos, apesar da pouca oportunidade que lhes é dada para tal.
Somando todos os poetas existentes na Terra, não chegam a 1% do total da população mundial. A forma mais eficaz que encontram para comunicar seus sentimentos é divulgando seus versos para outros poetas, que costumam interpretar e comentar as palavras escritas pelo colega com muita naturalidade e atenção. Quem não tem essa vocação, via de regra, não disponibiliza tempo e paciência para leitura de poesias, pois esse tipo de atividade, na verdade, está bem longe de sua realidade cotidiana.
Aprender é a melhor forma de se inserir num determinado contexto. É possível que as pessoas não tenham nem tempo nem paciência para apreciar uma poesia porque em nenhum momento de suas vidas tenha surgido uma oportunidade sistemática que os levasse a pôr atenção nesse tipo de manifestação.
Tudo se resume no fato de que existem algumas poucas pessoas que querem propagar seus sentimentos escritos na forma de versos, mas que não encontram sustentação suficiente na sociedade em que vivem para lhes permitir essa realização.
A fim de quebrar esse ciclo, a proposta é que cada cidadão de cada comunidade adote um poeta, não necessariamente com recursos monetários, mas vestindo sua camisa, assim como faz quando torce por um clube de futebol.
A análise fundamental que suscita essa possibilidade é que a poesia pode ser vista como um produto terapêutico, quando convenientemente assimilada. Não existe contra-indicação para a sua utilização. Apenas, como todo produto consumível, deverá ser adequadamente selecionado por quem o deseja, o que permitirá que cada organismo tenha a quantidade e a qualidade necessárias para o seu bem-estar. Daí, é fundamental que a adoção seja precedida de uma seleção criteriosa para que, assim, seja criado o máximo de sintonia possível entre o poeta e a pessoa que o adotou.
Aos que quiserem fazer a adoção, não é necessária uma formalização pública para que fique caracterizada a intenção. Episódios tais como a defesa e a divulgação do autor e de alguns de seus trabalhos para amigos já são suficientes para definir o vínculo informal entre o poeta e quem o adotou.
Independente de sua decisão, todos os poetas do mundo curvam-se neste momento e agradecem a você pela atenção dispensada na leitura desta proposta.
Você precisa ser um membro de Clube Caiubi de Compositores para adicionar comentários!
Entrar nesta rede social