Clube Caiubi de Compositores

Glauco Mattoso é pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (paulistano de 1951), alusivo ao glaucoma congênito que o cegou na década de 1990, bem como a dois de seus referenciais poéticos, Gregório de Matos e Gilka Machado. Embora tenha participado da “poesia marginal” e assimilado influências concretistas, não pode ser enquadrado nessas correntes, devido à trajetória pessoal, marcada, tematicamente, pelo radicalismo fescenino e escatológico, e, formalmente, pelo resgate de moldes rígidos como o soneto e a décima. Tradutor de poetas latino-americanos, recebeu em 1999 o prêmio Jabuti por colaborar na edição brasileira da obra completa de Borges. Autor de “Jornal Dobrabil” (1981, reeditado em 2001) e de “Poesia digesta: 1974-2004”, entre dezenas de obras em verso e prosa. SONETO DA SOPA RELIDA [1612]

Na minha fantasia, aquela enorme
cumbuca contém sopa, mas completo
o sonho me será desde que forme
o macarrão as letras do alfabeto.

Enquanto, à noite, o estômago já dorme,
o sonho só retoma seu trajeto
poético depois que se transforme
na sopa de letrinhas, com afeto.

Menino que seu nome já compôs
no prato, com feijão ou com arroz,
notou que o macarrão melhor se lia...

E, quando fica cego, o adulto lê
seu nome com a língua, no ABC
da sopa com sabor de nostalgia...

SONETO DA ESQUINA INESQUECÍVEL [793]

Um centro de convívio nos convoca
em todo itinerário, noite e dia.
Alguns o denominam "padaria".
Aos íntimos, atende por "padoca".

Café com leite e pão, sanduba e coca,
sorvetes, bolos, frios por fatia:
o bar ao mercadinho ali se alia
e quando a nota é grande, ali se troca.

O frango abre apetite e forma fila.
Os queijos na vitrine a boca molham.
Quem olha a torta exposta não vacila.

Esnobes que um local mais chique escolham:
de mim ela está próxima, e curti-la
relembra o que meus olhos já não olham.

SONETO CONSUMADO [527]

Poetas, cada um canta a seu modo
aquilo que emoção maior lhe empresta.
Comigo, um quente caldo faz a festa:
pavesa, minestrone, canja, brodo.

Legume ou cereal, qualquer e todo;
das carnes o sabor ninguém contesta;
cebola é a quintessência, mas mais esta:
o alho, a maravilha dum rapsodo!

Detalha o caldo verde a farta couve.
Se ervilha ou se lentilha não decido.
Toucinho ou lingüicinha: há quem não louve?

Depois do prato fundo repetido,
mais nada quero! Fiz o que me aprouve:
morri, ressuscitei; sofri e revido!

SONETO ACALENTADO [535]

No dia em que eu for rico, não terei
mansões, carrões, piscina, apê na Europa:
com brilho e auê meu tipo não se dopa
nem paga aula de assunto que não sei.

Na mesa, porém, quero, como um rei,
jantar com antessopa e sobressopa:
toalha pode ser até de estopa,
mas sopa no meu prato será lei!

Não falo da sopinha trivial
que todo mundo toma no jantar,
tão rala que parece chá com sal:

Refiro-me às que lembro de tomar
no tempo em que a colher, descomunal,
no prato mergulhava, feito um mar...

SONETO LOCUPLETADO [536]

No dia em que eu for rico, meu banquete
três pratos diferentes cada dia
terá, mas só de sopa, o que seria
salada, arroz-feijão, bife e sorvete.

Primeiro, por exemplo, um espaguete
no caldo de feijão e uma fatia
de pão; depois, bem cheio, bem podia
chegar mais um, que a gente até repete...

A próxima a servir seria a canja
com pouco arroz, a fim de que não pese,
porém feita da pura ave de granja.

Por fim, e coroando minha tese,
no estômago um lugar sempre se arranja
se o brodo leva um queijo que se preze...

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