
Filha de Oxum, orixá-mulher da sedução, e Xangô, o senhor da Justiça, LHC tem a proteção de Obaluaê, que detém o poder da cura e da morte e cobertura de Oxalá, o deus da sabedoria. Sob o signo de Touro, nasceu no outono de 1949 – maio da fertilidade – de pais operários, no subúrbio carioca de Vaz Lobo, quintal da Escola de Samba de mesmo nome. Negra (de alma negra), de Madureira/Portela/Império Serrano, mas salgueirense, conserva a ginga do samba. A raiz.
Graduada pela Escola de Comunicação (ECA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em Jornalismo Gráfico e Audiovisual e curso de doutorado pela Universidade de São Paulo, cultiva uma grande paixão: o jornalismo, espécie de sacerdócio. Na verdade, a comunicação é a única “ciência” na qual ela confia plenamente. Em mais de 30 anos de profissão e sem planos de me aposentar, LHC já trabalhou em 90% dos grandes jornais e revistas do eixo Rio—São Paulo, escrevendo sobre tudo – de política, economia, finanças, tecnologia a receitas culinária e até horóscopo, quando, um dia, na extinta Última Hora carioca, a astróloga esqueceu de mandar a coluna.
Mas, depois do jornalismo e da poesia, não necessariamente nessa ordem, com o sangue do tetravô, Joaquim Antônio da Silva Callado, correndo nas veias, em 2004, acabou se entregando, a uma outra grande paixão: a música. Desde então, como intérprete, não parou mais de fazer shows, fora algumas “canjas” em teatros e casas noturnas de São Paulo. A favor dela, LHC tem a minha voz de contralto, grave, meio rouca, que se ajusta ao tipo de música de que gosta: romântica. LHC adora samba-canção, blue e jazz.
A poeta LHC (Antologia da nova poesia brasileira, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1992), autora, entre outros, do livro Cebola Crua, editado em 1989, pela Editora SJS, São Paulo, usa a poesia não apenas como recheio do texto jornalístico, mas, igualmente, como ferramenta para compor letras, muitas delas já musicadas por diferentes parceiros.
alguns haikais
aos 50
só desejo paz!
tudo em mim é para sempre.
nada é nunca mais.
mortalidade
um dia, sem pés,
voarei meu próprio sonho.
gaivota das marés.
da essencialidade
tudo que é pra sempre
(da morte à dor de amar)
vem no singular.
(para Olga Savary, amiga para sempre)
morrer
é ser o que se é,
só que ao revés: bicho livre
da garra dos pés.
a prova do crime
do jeito que foi,
meu rapaz, ainda guardo
as tuas digitais.
senso de organização
só, depois da festa,
considero suicídio.
antes, lavo a louça.
última cena
pôr-do-sol. na lâmina
do dia, morro no mar.
de hemorragia.
ad-eternum
a morte nos faz
iguais: um cálice frio
que não contém mais.
mulher alada
nos meus sonhos, vôo.
(senão, escalo: mulher-hera).
aqui? quem me dera!
plano de voo
no fim desta vida,
pousar lá, na eternidade,
livre da ferida.
sobre a paixão
não bebo mais dessa
taça. prefiro esta sede
à dor que não passa.
longa-metragem
the end! na ficção,
todos felizes. meu filme...
você não entende!...
jardinagem
dia de outono
(lindo!), ouço a semente
no chão... explodindo!
manchete de polícia
mulher mal-amada,
(quem diria!) entra na tela.
e fica lá... encantada...
(como em Woody Allen)
herói predileto
do meu super-homem
sobrou só isso: um ator
ferido em serviço.
(para Cristopher Reeve)
pássaro morto
para onde voou,
na ribalta, aquele sopro
que agora te falta?
estilo próprio
não posso amar como
me dizem os manuais.
te amo muito mais...
questão de escolha
eu vivo dos riscos...
a correr... não serei eterna.
só quero é viver.
praga
o amante que parte,
retirante, devia enfeiar...
lembrança? só má.
interrogação
o pensa o suicida
entre o repouso da morte
e a dor desta vida?
Mulher-cão
No inferno, eu cuido
do meu rabo. E sou feliz
só pra irritar o diabo...
OUTROS POEMAS
EXERCÍCIOS DE AMOR
Dizer na tua boca
o que não soube.
Espiar em teus olhos
o que não vi.
Pôr em teu dorso
o que em mim não coube.
[PLENITUDE]
Plenitude
Em mim dormem todos os meninos e mendigos:
paz e frio.
Em mim deságuam todos os rios e vulcões:
frescor e lava.
Em mim despertam todos os desejos e inércias:
paixão e tédio.
Em mim guerreiam todas as mulheres e feras:
calor e ira.
Em mim ardem todas as secas e incêndios:
poeira e cinzas.
Em mim se abrem todas as fendas e navalhas:
dor e hemorragia.
Em mim se travam todas as batalhas e se tramam todas as traições:
cansaço e morte.
TRAPAÇA
para o cavalheiro Escadinha, amigo de infância
Eis o que me fez a vida:
só me pagou a esperança
na sexta-feira à noite.
Com cheque sem fundo.
ORAÇÃO DA MEIA-IDADE
Dai-me coragem pra resistir à gula no jantar...
E apetite pra me deitar com meu homem.
Livrai-me da amargura,
poupai os amigos de infância
do infarto, do câncer, do divórcio,
da solidão, do suicídio...
E fazei-me supor, por piedade,
que tudo isso são tragédias
que a vizinhança inventou.
ACORDO ENTRE PAREDES
Depois de acabado,
o que dói mesmo
é a lembrança
das loucas mentiras
tramadas na cama.
Assim, vamos fazer um trato?
Sem imprudências e leviandades,
eu não ouço o que você diz
e você não diz que me ama.
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