
Luiz Carlos de Moura Azevedo, paulista da Capital, nasceu em 1947 e é formado em Arquitetura. Mestre em Literatura Portuguesa pela FFLCH da USP, com uma dissertação sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, inicia o doutorado em 2008, com um projeto envolvendo poesia portuguesa do final do século XX. Seu livro O passeio do duque a cavalo e outros poemas (2ª edição, São Paulo: Scortecci, 2004) foi o vencedor do I Concurso Nacional Livraria Asabeça, em São Paulo, e recebeu o Prêmio Alberto da Costa e Silva, da UBE, no Rio de Janeiro. O poema “O Passeio do Duque a Cavalo” foi incluído na antologia Paixão por São Paulo, organizada pelo poeta Luiz Roberto Guedes (São Paulo: Terceiro Nome, 2004). Tem poemas premiados cerca de trinta concursos nacionais de poesia, com quatro primeiros lugares, além de três contos classificados em primeiro lugar no II Concurso Nacional de Contos do Paraná, em 1969. Cursou História da Arquitetura no Centro Andrea Palladio, em Vicenza, Itália e, desde 1983, trabalha no mercado de artes e antiguidades, participando, atualmente, das feiras da Praça Benedito Calixto e do MASP, ambas em São Paulo.
Os poemas incluídos nesta antologia foram escolhidos em função do gosto pessoal de alguns leitores ou ouvintes muito especiais. Marcelo Coelho, membro do Conselho Editorial do jornal Folha de S. Paulo e colunista do caderno Ilustrada incluiu, em agosto de 2006, “Os Sábados Passados” e “Lettera 22” em seu blogue sobre cultura e crítica, com o seguinte comentário: “Moura Azevedo tem paisagens muito paulistas, uma capacidade descritiva invulgar, e sabe, como raros, não pontuar um poema. Os dois que reproduzo aqui não tratam de cenas urbanas, mas têm um humor comedido, muito agudo e hábil em deixar o leitor suspenso pelas palavras”.
O professor Paulo Franchetti, da Unicamp, preferiu destacar o “belo”, segundo ele, “Um Cenário de Cinema”, “no qual a cena se desenha tão nítida quanto num haicai”, através de uma expressão “límpida, sem exposição direta da emoção”, num “modo de compor [...] próximo do que Eliot descreveu com o termo correlato objetivo”.
“Havia Uma Orquestra no Metrô”, cronologicamente (1999) o primeiro dos trinta poemas premiados em concursos nacionais, nunca foi publicado, permanecendo inédito até agora. Essa era uma reclamação constante da poeta Betty Vidigal (autora, entre outros, de Tempo de mensagem, São Paulo: Martins), que, a propósito dele, escreveu, na contracapa de O passeio do duque a cavalo e outros poemas: “É um poema lindíssimo e inesquecível. As imagens, cinematográficas, ficam gravadas na retina do ouvinte”. Ao que parece, realmente inesquecível, pois muitos dos que ouviam o autor declamá-lo, na Feira de Antiguidades do Shopping Iguatemi, em São Paulo, há sete ou oito anos atrás, repetem até hoje o seu mote de cor, como é o caso do antiquário Ernesto Carlos Teplik Jr.
Finalmente, o quinto poema, “Quatro Hélices”, costuma ser o favorito do público, durante as apresentações do poeta no Sopa de Letrinhas, tendo sido premiado, em 2002, no Concurso Florbela Espanca, de Niterói, Rio de Janeiro.
OS SÁBADOS PASSADOS
há muitos sábados atrás
nos anos de celi campelo
vendiam-se sofás-camas a prestação
as praias eram desertas e inacessíveis
há muitos sábados atrás
quando uma viagem era uma viagem
compravam-se os livros ainda virgens
e a lâmina da adaga estalava
ao abrir cada página do romance
há muitos e muitos sábados atrás
quando um passeio era uma aventura
éramos felizes e ninguém percebia
seu vestido de bolero meus sapatos bicolores
o clube de campo os anjinhos de bochechas
atrás do campo de golfe um matinho as formigas
as salsichas de mentira as bolachas com manteiga
éramos felizes como ursos de pelúcia
há muitos sábados atrás
íamos ao aeroporto só para tomar café
há muitos e muitos sábados atrás
o cinema oásis era um teto de ventiladores
os anéis de saturno nossos dropes salva-vidas
há tantos e tantos sábados atrás
quando celi campelo era uma menina de saia rodada
nem eu nem você havíamos nascido
LETTERA 22
saudades da pequena olivetti portátil
apoiada no colo
como clarice
saudades de escrever direto e de frente
face a face com o inimigo
o barulho das teclas acordava os vizinhos
a tinta manchava os dedos
as teclas emperradas sugavam sangue
saudades da pequena olivetti portátil
pedindo colo
como criança
UM CENÁRIO DE CINEMA
como numa natureza-morta de folhinha
tudo estava ali
o leque flutuando no ar calado do quarto
a noite dormindo sentada em sua poltrona confortável
as paredes geladas de equívocos
um feixe de flores desengonçadas
arremessando sua luz
dentro do jarro repleto de pranto
mas os nossos lábios tão secos
enquanto os ladrilhos cheios de lágrimas choviam do teto
do outro lado da janela o vento imóvel
ao longe os limites incolores do horizonte desmaiado
mas são detalhes fluídos escorridos
como num cenário opaco de cinema
HAVIA UMA ORQUESTRA NO METRÔ
havia uma orquestra no metrô
chovendo violinos no vagão
o anhagabaú então vestido
rendas pretas cetim ruço forros surdos
atropelando os fagotes nos assentos
prefiro os seios da harpista
havia uma orquestra no metrô
derrapando de celo em celo
subi e desci a todos os infernos
como as crianças do paraíso
os meninos do foyer
os diamantes de cada frisa
rápido é o percurso até a sé
a estação é apenas uma ilusão
descem todos pelas portas da esquerda
trombando em colunas rolando na escada
o caminho de itaquera é o rascunho da amarelinha
atirando pedrinhas com a cor das mesmas notas
linda morena
a violinista dos dedos de mel
não deu corda não deu bola
não deu nada
havia uma orquestra no metrô
com topetes de trompetes
e tapetes da quinzena
do mappin que faliu
em qual andar eletrolas e vitrolas?
o prédio da light
não passa de mais um shopping
como os bondes da teodoro
são apenas
a duras penas
só um sonho da maria rita
deu para perceber
havia uma orquestra no metrô
entre o cartaz do crédito fácil
a banca dos doces de minas
e as pernas da passageira mais rápida
até deu para escutar
havia uma orquestra no metrô
tocando para a torcida do corinthians
fugindo da platéia esvaziada
pensando na última lotação atrasada
havia uma orquestra no metrô
o ingresso vale uma estação
do paraíso ao mais próximo purgatório
entre o carandiru e os fogos caramuru
entre o inferno e o joelho da próxima passageira
QUATRO HÉLICES
destampo um frasco de acqua velva
e o escritório do meu avô surge voando baixo
como um besouro pesado um zepelim pegando fogo
os recortes da guerra o prato onde comeu o imperador
as gravuras francesas a caixinha do egito
o escritório do meu avô era uma disco-voador
rebocado sem pressa por bailarinas de louça alemã
dançando suspensas por uma só perna
aquele sofá de palhinha e veludo
o quadro sobre a lareira com volumosos seios redondos
era esse o escritório do meu avô
cheio dos cheiros de baralho usado tabaco e vermute
aquela estante com leões coroados e patas de elefante
era esse o escritório do meu avô
os peões comendo a rainha atrás do tabuleiro
era esse o escritório do meu avô
como se fosse um hidroplano de quatro hélices
pousado de barriga durante o cochilo do piloto
a aranha nua na banheira em caxambu
poesias declamadas na fonte dos amores
as águas sulfurosas os gramados de estátuas
o escritório do meu avô era maior que o hotel palace
o tapete voador o tinteiro de duas cores
as tesouras escondidas em cada gaveta
o escritório do meu avô era um bazar de istambul
o museu do ipiranga e a loja dos dois mil réis
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