Clube Caiubi de Compositores




Ausência

A tua ausência, por tanto tempo mera contingência, hoje assusta, faz tremer, causa pavor. Se neste momento pudesse te saber feliz entoaria um fado, não um tango. Fados falam de saudades, resignação. Tangos são bons para os ouvidos, mas são por demais possessivos, trágicos, mera paixão.

Ao perceber a saudade, o sentimento de falta, percebo o amor presente, o querer bem, a vontade ainda que inanimada de ofertar quase nada, mas o pouco necessário, ainda que insuficiente.

Essa saudade presente, a distância irrisória, condição provisória de cada minuto de espera, estanca a razão e leva a devaneios, nem sempre os melhores meios de enfrentar cada dia.

Consciente desses fatos, meço cada um de meus atos, para que sejam caminhos, esperas inevitáveis, porém rumos prováveis ao que se sabe buscar.

E busco incansavelmente. Tenho a rota na mente e a bússola nas mãos. Só temo que o destino, irônico como sempre, mude o porto de lugar.


A sul do Ibirapuera

A sul do Ibirapuera estou desde outra era. Onde nasci era longe, era terra repisada, a muitos minutos daqui. Era estéril, fabril, viciada, cheia de gente arraigada em sabedoria de rua pavimentada. Vim para o mato, para sul do Ibirapuera, para perto do Aeroporto e longe dos campos de várzea.

Vi nascer o parque. Fui à sua inauguração. Em termos de arquitetura e estética, conheci minha primeira emoção. O parque até hoje é uma referência, nascida da inocência do que foi visto e desenvolvida na teoria do que foi aprendido no curso de arquitetura. A beleza do parque é simples, é pura como era pura a visão de quem o via pela primeira vez. A primeira vez de nós, do parque e minha. Ele também me via espantado.

Cresci e criei raízes a sul, sempre a sul, onde o cheiro das ruas era de mato e flores, não de fuligem. Deixei de aprender as malandragens do bairro onde nasci, onde os espertos e vividos viviam. Deixei de respirar a fuligem das fábricas de sei lá o que, das tecelagens, das malhações de Judas e do fazer e soltar balões para vir ver os balões, sempre fascinantes, de baixo, de a sul.

O cheiro do mato e o coaxar dos sapos no brejo de Moema, à época Indianópolis, me foram companhia das noites estreladas no terraço de casa. Ruas de terra, sem iluminação, sem guias ou sarjetas, sem calçadas, sem nada. Apenas minha infância a se desenvolver como pudesse, sob o medo que sentia minha mãe, fora de seu território, sob a coragem do pai, desbravando o bairro do futuro.

A sul do Ibirapuera cresci, dentro das oportunidades e das limitações peculiares ao local. É aqui, pouco a sul, que me reconheço. Quando estou a caminho de casa, pela via arterial, há um ponto onde sei que cheguei. A atmosfera já é diferente, é meu lar, meu lugar.

Tantas outras coisas me fizeram gostar de sul. Fujo da linha do Equador, quero o tempero. Fujo dos pólos por serem frios em exagero. Os climas temperados me são mais afáveis, com seu pouco de frio e calor, um exemplo melhor de humor balanceado.
Por isso fico aqui, a sul do Ibirapuera, lugar que me tempera, que me adota e acarinha.

O tempo passou depressa demais, a cidade cresceu para cima demais, enriqueceu e empobreceu demais. Aqui nasceu gente além da conta, chegou gente além da conta, e se cospe neste chão de onde se tira o pão, além da conta.

Em meu terço de ateu, rezo mais uma vez, passo nos dedos outra conta. Se a realidade afronta, a sul do Ibirapuera o tempo não conta.


Almas costuradas

Quando, além dos corpos, as almas se aproximam, as mãos se entrelaçam e costuram a união. As bocas e línguas se comunicam em um dialeto silencioso, onde as palavras são simultaneamente pronunciadas, simultaneamente compreendidas. Conversam com todo o corpo, buscando os cantos mais compreensíveis, os recantos mais plausíveis da comunhão perfeita. Parte por parte o corpo se ajeita e oferta ao corpo da outra alma, a calma prevista, esperada e realizada.

Adentro. Dentro sé é recebido e acarinhado, envolvido e agasalhado da maneira como só duas almas costuradas poderiam se tratar. E dançam essas almas quase infantes, dançam como muito antes se embalaram inocentes, como se fossem crentes na eternidade da pureza que a melodia, pura melodia, insinua.

Alma nua dentro de alma nua, inda que corpos se afastem pela peculiar rudeza que compõe os corpos físicos, parte de um permanece no âmago do outro. Gotas indeléveis ainda que não férteis de outras almas, mas prenhes daquilo que intuímos mais se acomodam. E corpos se aninham, almas se espreguiçam e se abraçam.

Costuradas uma à outra permanecem. Tecem a história da memória e do futuro, da inexistência de muro, da presença de momentos que, por si, são movimentos dessa eterna sinfonia que só tempo, muito tempo, propicia. Tudo novo, sempre novo embora o mesmo, a cada dia.


Aspecto

Checo meus dentes: não são pontiagudos. Confiro-os todos e lembro que não tenho os caninos superiores, subtraídos que me foram à revelia antes, muito antes, de se popularizar a ortodontia.

Conjecturo se a ausência de dentes naturalmente agressivos não teria moldado uma personalidade mais pacífica, mais específica. Não aprendi a rosnar, a mostrar os incisivos e molares que me restaram, pois são os caninos que, aos pares, definem o cão, o lobo raivoso, o próprio vampiro, o lobisomem ou alguns felinos que bem se resolvem.

Assim, sorrio discreto. Meu sorriso é, sem dúvida, direto, mas manso e, talvez por ter sido assim moldado, não sei bancar o soldado. Não sou um guerreiro inútil, não me apego à violência fútil. Fico em paz, ateu e circunspecto.

É, mais ou menos, esse o meu aspecto.



Dois Anjos

Meus anjos da guarda são dois. Um fala agora, o outro depois.

Este que agora fala e toma a mão e a caneta, garante um momento justo, com texto de opereta e junta rimas a esmo ou aforismos vulgares, que vêm de tantos lugares que nem os anjos se lembram, mas tocam em frente o processo.

- Escreva-se outro verso!

E minha mão obedece cegamente, comportada, e mesmo que não diga nada, no fim o texto me intriga.

O outro anjo me escuta, pondera, discute comigo, aconselha como amigo a escolher cada palavra, evitando o perigo de registrar cegamente as coisas que vêm à mente e comprometem depois.

Eu tenho muitos amigos, mas anjos da guarda, só dois.

Um deles volta à carga e me mantém escrevendo e fumando e bebendo. Sou só o seu instrumento de mensagens imediatas, de conclusões provisórias que, se não contam histórias, também não são um lamento.

Mais uma vez, protegido, retorno à consciência. Deus salve a providência de me dar tais companhias. Tenho uma história simples, uma família normal, tenho amigos, colegas e um afeto especial. Tenho coisas diferentes, às vezes incompatíveis, milhares de neurônios e um violão meio velho que comigo se indispôs.

Tenho um milhão de motivos, mas, anjos da guarda, só dois.

Rogo pragas criativas: “pedaço de asno”, xingo. No sábado ou no domingo e às vezes pela semana, digo que vou à merda e ofereço carona. Mas me comporto direito. Se me falhar a caneta, levanto e vou à gaveta. Paro no bar, me abasteço, me dou tudo o que mereço e não reclamo depois.

Eu tenho muitos defeitos, mas anjos da guarda, só dois.

Me rendo à fadiga do corpo, à meditação necessária. Paro, limpo a área e vou descansar, finalmente. Acendo o último cigarro, procuro o último gole. Viver assim, não é mole, mas tudo sempre se encontra no lugar onde se pôs.
Vamos dormir. Boa noite.

Eu e meus anjos. Os dois.




Hoje acordei com saudade


Hoje os meus olhos estão mais baixos. Eu tenho quase tudo para estar bem e se não estou o problema é meu. Até a TV, invasiva, está tocando, alegre, uma daquelas músicas de “happy end”, daquelas inconfundíveis.
Minhas emoções são incríveis. São fixadas em imagens estáticas de passados que se negam a passar que os hormônios se negam a abandonar que os neurônios não deixam por menos. Pormenores, apenas pormenores que insistem em atos de tortura para quem quer levar uma vida reta e discreta.
Hoje os meus olhos insistem em olhar para dentro, para o centro do que é o mais corrosivo e ácido, não há acordo firmado ou tácito que os demovam do intento. Hoje não há a paz que finjo ou invento, não há contemporizador ou lenitivo que remova ou aplaque a dor do que penso.
Hoje acordei para lembrar o que temi, o onde me acovardei, o onde errei. Um dia que quero salgar para que dele não brote nem erva daninha, nem ar.
Hoje acordei com saudade.


O afeto não se basta

O afeto não se basta por mais que a razão ordene e desafia, solene, a santidade mais casta. Afeto não cabe em si, ultrapassa, por mais que seja contido, por mais que a lógica faça, até o sexto sentido.

E vai pras mãos liberado, corre pro peito, pros lábios, se espalha por todo lado subjugando os sábios, libertando prisioneiros, brincando como crianças, calando os conselheiros. E, como sempre, avança, transformado em afago, reconstruído em carinho, desfazendo o estrago que faz enquanto sozinho.

Assim, de passo em passo, jamais faz mal a ninguém. Renasce como um abraço... que não se basta, também.


Noturno

Procurei palavras grandiosas, grandiloqüentes. Procurei imagens eficientes para te dizer de meu carinho. Procurei imagens importantes, emocionantes, procurei onde não teria fim a procura, pela melhor forma de loucura que te dissesse o que quero te dizer. Mas por aí não iria acontecer.

Encontrei minhas palavras no silêncio do afago que te cobria com apenas o lençol fino e te protegia de um frio que não estava mais lá. Encontrei frases inteiras na tua respiração serena, adormecida em mim, sem medo ou assombro que te pudesse subtrair a paz. Encontrei o mais oportuno provérbio, não a frase feita, na forma com que você deita a cabeça em meu ombro e se desfaz de medos e sustos.

Foi na simplicidade do escuro, apenas tomado pelo natural ruído da rua que nos ignorava, que eu percebi que estava em meu lar, em meu lugar que é o espaço onde te abrigo e me abrigas, onde as peles nos são as cobertas mais confortáveis, onde apenas a presença nos faz viáveis, possíveis, estáveis.

Foi na simplicidade desse silêncio que achei o poema que jamais te saberia escrever com palavras. Apenas a ponta de meus dedos te afagando, disseram o que eu não saberia dizer quando escrevo com as mesmas pontas dos dedos neste teclado frio.
Permita-me este desvario. Teu sono na minha vigília foi um sonho quase todo realizado, permanece em mim isolado, como uma ilha, cercada de lembranças que, enquanto me durar a lucidez, estarão presentes.

Você está em mim impregnada. Nem o tempo, nem nada, poderá te extrair de mim. Este amor, meu anjo, é simples assim.


O silêncio que arrepia

O Silêncio que arrepia não é a falta da música, da melodia, do batucar ritmado. É roupa fria que envolve e não agasalha, é quase uma mortalha antes da hora, invasiva. Um silêncio eloqüente que range em cada dente o romper de si próprio e em si próprio termina. Sinfonia inacabada que pouco, ou quase nada, revela a obra, o gênio.

Mudamos a casca morta, já trocamos de milênio e o silêncio é o mesmo. Fica rondando a esmo, um silêncio que se escuta. Barulho filho da puta! Que inferno inoportuno! Que gatuno a nos tomar a paz, com tanto esforço conquistada!

O silêncio é isso: é nada. É um nada que incomoda, que invade e, parece, nunca sai de
moda. De silêncio se padece.

Nesse processo, nada cresce. Tudo é sempre retrocesso. Nem vacina nem remédio, apenas veneno puro, destilado, potenciado, injetado à revelia por meio de agulha fria que rasga enquanto invade. E dentro fica à vontade, corrói impunemente e soma dentro da gente mais uma meia verdade, suposição intuída, infeliz, pouco oportuna. Se nada fiz, não me puna, não me imponha o castigo.

Resta um ombro amigo a renascer, insistente.

21/11/2006

Rugas

Sem querer, franzo o cenho. Mudo o desenho da fronte, mudo a mudez do momento, deixo de ser só o intento de parecer calmo e nobre. Minha face agora é pobre, com rugas impostas à testa que buscam, sem fé, horizonte, porto seguro, terra à vista.
Dista de mim qualquer monte Pascoal, distam as aves, sinal de caminho completo, me arrependo de ter seguido reto, a despeito dos sextantes, dos astros, das cartomantes, e dos infantes prematuros. Apenas franzo a testa e observo no escuro.
Naves e chaves de paraíso, caminhos e percalços do excesso de juízo, são meus grilhões. Vejo-me preso ao porão, ao purgatório com as mãos de tal forma atadas, que fossem quais fossem as desvalidas batalhas com os corsários da vez, melhor ter sido trespassado por espada de bandido, do que ficar, sem sentido, me arvorando de altivez e de tal forma sem força, sem poder, sem ter a vez de ameaçar o destino, ao qual hoje me reclino, aceito e digo que é certo o que fez.
Me acanho de tais escolhas, poucos vinhos, muitas rolhas, nenhum corte na garganta, apenas a vida santa sem martírios que me canonizem ou faça lembrado.
Permaneço deste lado, fronte cerrada e séria, no fim a mesma miséria de qualquer herói ou bardo, de qualquer santo ou bastardo, que tenha sonhado a aventura, mas tenha se atado ao mastro, para calar as sereias, para ter ainda nas veias um sangue para ser jorrado.
Agora, viro de lado e vou dormir, porque é tarde, sei que a alma ainda arde, mas o sono me consome. Agora, mudo de nome e volto porque preciso. Não me basta ter juízo, é preciso ter coragem e uma imagem que observo, da qual sou mais que cativo, sou servo, para que ainda me ameace e me relaxe um dia, enfim, esses músculos da face.


Fênix bizarro

As cinzas serão nutrientes
No vaso em que bato o cigarro
E assim como um Fênix bizarro
Meus sonhos renascerão
Serão como um pesadelo
As noites que tive a te-lo
Serão como um bálsamo
Um ázimo pão
A me saciar uma fome
Que tem endereço e nome.

As cinzas serão descartadas
Os sonhos serão redivivos
E fortes serão os motivos
Pra que eu persiga
Uma existência

E nem inocência prevista
Nem honestidade revista
Farão que a idéia se mude
Seremos assim, amiúde.

Um dia em leitos afáveis
No outro, infiéis, miseráveis,
Num dia a farta folia
E noutros, então, quem diria.

As cinzas só são testemunhas
De que me agarras com unhas
E eu te seguro com dentes
E assim seguiremos
Tão cruéis
Quanto inocentes.

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Aline Romariz Comentário de Aline Romariz em 12 agosto 2009 às 7:04
A Rádio Amiga fm de Salto-Sp, tem o prazer de convidá-lo a participar do I Encontro de Poetas em Salto que será realizado no dia 19/09/2009 a partir do meio dia.
Programação:

12:00 hs- Abertura do encontro, ao vivo, no Programa Palavra de mulher
14:30 hs- Almoço dos poetas
20:30 hs -Sarau poético

Para maiores esclarecimentos
Contato-aline.romariz@gmail.com

Aline Romariz
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