o telhado da nossa casa está desmanchando
vejo os pedaços de telha voando no ar
e o tic tac dos ponteiros falando mais alto
o chão está se abrindo em vigas
e as paredes pedindo novas tintas
linda palmeira me despeço, estamos crescidas
esse quarto que recebeu amores
e abafou os gemidos das noites
exala cevada cana corda canabis e flores
os cochichos ainda ressoam pelos cantos
pensamentos de anos estão no ar brincando atrás dos meus ouvidos
e as personas, meus rebentos, ficarão guardadas nesses espelhos
o cintilar do vento, a brutalidade pura do toró
que eu assistia da varanda desfaziam meus nós
as arvores a chorar e eu sem piedade querendo gozar
porta trancada e o coração aberto
sonhos longos e uma vida breve
madrugadas solitárias com visitas venenosas
foram tantas prosas à luz de vela
tantos desenhos de aquarela
ao som das mais belas melodias da era
Débora Tieppo
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