
QUEM É O CARA?
Possui poderes intermináveis.
Não terminou o catecismo,
não terminou a faculdade de jornalismo nem o curso de datilografia.
Especializado em fazer inimigos,
contar piadas de caipira e e falar da vida alheia.
Nunca foi à Bahia.
Odeia João Gilberto e não suporta filme iraniano.
Gosta da bisteca do Sujinho , revistas do Aranha, Pernalonga,
Clint Eastwood, Valéria Valença, Smiths, Neil Young,
Sérgio Sampáio, Leonard Cohen, Hammet e Fante.
É viciado no sanduba de pernil do Estadão
e tem saudades da Seleção de 82: Socrates, Zico, Júnior e Falcão. Lembra?
A OBRA DO CARA
Vlado Lima é compositor, poeta e agitador cultural.
Tocou em botecos de 3ª do velho oeste
e até num extinto inferninho da Avenida Pacaembu,
foi demitido deste último, segundo as meninas da casa, por que “tocava” demais.
Integrou o Colégio Brasileiro de Poetas de Mauá e fez parte de algumas coletâneas.
Montou e liderou algumas bandas, entre elas a Amalgama,
a Divina Decadência, Kanalhas Futebol Clube e os Tropeçalistas. Todas foram pro brejo.
Tem dois livros inéditos de poesia, um deles, o Pop de Pára-choque,
será editado , se não ocorrer pancadas de chuva durante o período, ainda este ano.
Participa como um dos compositores mais ativos do Clube Caiubi
e produz o concorrido sarau Sopa de Letrinhas.
ALGUNS POEMAS DO CARA
EXISTENCIALISMO ERÓTICO DE UM INSETO DEPRAVADO
o grilo
do grilo
é a grila
não ter grelo
LOST NA LESTE
lost na
Leste
pra lá do lado B
do Boturussu
e daí?
sou da Sul
não tenho medo de teco
qualquer porta de boteco
basta pra eu me achar
sabe como é
mano é mano
mané é mané
em qualquer lugar
no Herplim
Bombaim
Dublim
Artur Alvim
ou Bagdá
ÁLBUM DE FAMÍLIA 1
meu pai
tinha talento pra
perder perdeu nas cartas
perdeu nos dados
na sinuca
na loteria
nos cavalos
perdeu no bicho
no dominó
no palitinho
no par ou impar
perdeu mulher
perdeu amigos
perdeu o fígado
perdeu as pregas
é a vida! — ele dizia
mas essa ele perdeu também
QUÉ PIPOCA, OU QUÉ PÔ PICA?
minha namorada cinéfila de boca carnuda
jeitinho de Gilda
e ego de Menina Super-Poderosa
pra mim era apenas uma mina com cara de Espaço Unibanco
e gostosa
muito gostosa
ela só pensava em cinema expressionista alemão
eu só pensava em sexo
ela não era de forno & fogão
eu sou de banho & tosa
ela queria o Bela Lugosi
e eu, uma bela gulosa
FOUCAULT FREUD E FRALDAS DESCARTÁVEIS
para Viniboy, para Pedro e para Lucas
dialético diletante
não queria ser pai
crianças são diuréticas
mijam demais
cagam demais
choram demais
mas nasceu meu filho
uma bolinha de carne com 3 quilos e 800 gramas
aprendi cambalhotas
piruetas
caretas
e outras macaquices
virei um encantador de mamulengos
um cartoon de carne
um domador de dinossauros
um funâmbulo sonâmbulo
que em noites de cólica versus chá de camomila
toca pandeiros de pelica
numa banda de pandas de pelúcia
OS BRAVOS DANÇAM RUMBA SOBRE AS TUMBAS
homem não chora!
foi o que me disseram quando um Vulcabraz 45 atropelou os soldados de Gulliver
acreditei!
enjaulei meus pesadelos num vidro de maionese
montei numa vassoura alada
e voei pro inferno de Dien Bien Phu
pra lutar contra os panzers de Gengis Khan
hoje
quando me perguntam sobre essa coisa salgada
represada nas minhas retinas
digo: não é lágrima
é vingança destilada
caos líquido
só caos líquido
ELEMENTAR, MEU CARO WATSON
morta a poesia
na biblioteca
com um tiro no peito
Holmes diz: ou foram os poetas medíocres
ou foi o mordomo
( . )
NA MINHA
Kurtz em mim
sibila
(sílaba por
sílaba)
: o hor-ror! o hor-ror!
mas eu na minha
eu na moita
boi na sombra — sem pressa
— barriga no barranco
neca de nóia
de neura
eu só sol só sossego
eu só chope
manjuba
&
júbilo: valei-me Valadares!
crises nas infinitas terras
(beliscões bélicos nos Bálcãs
cárie no dente do Oriente
o fim do mundo em slow motion)
(...)
mas eu na minha
eu na moita
o Foda-se ligado no automático
nem prático/
nem letárgico
/nem céptico
eu só cínico
OBSESSÃO EM GOTAS
jantou
fumou um cigarro
e escovou os dentes
depois afiou a faca de churrasco
esquartejou a esposa
e jogou os pedaços na caixa-d’água
de madrugada
sentou-se junto a pia
abriu uma fresta na torneira
e contou as gotas de carne
bem me quer!
mal me quer!
bem me quer!
mal me quer!
bem me quer!
(...)
DE MAL DE MIM
há tempos eu não falo comigo
foi assim
acordei um dia
puto
olhei minha cara no espelho
e fiquei de mal de mim
não suportava mais o euzinho burocrata
reinando absoluto sobre as terras médias
do lado esquerdo da minha cabeça
o cara não canta
não assobia
não samba
não anda descalço
não toma banho de chuva
não coleciona maravilhas em vidros de maionese
nem caça estrelas com as pontas dos dedos
se julga o senhor das ciências exatas
tudo é número
gráficos
índices
planilhas
& performance
só não viro a cara definitivamente pro sujeito
porque o infeliz
é quem paga as minhas contas
TANGO, TSUNAMI & ESPAGUETE
domingo
pé de cachimbo
um tanto de tango
outro quanto de rango bom
mãe pilotando uma panela sem tampa
orgia de cheiros
e temperos
tem Etti
tem K-suco
colorau a granel
e Petybon
menino: vai buscar teu pai no bar!
domingo
hora do almoço
um caroço de manga no peito
e o céu com jeito de Charles Bronson
pai no Congo da mesa
mãe nos Pireneus
minha irmã de lá
eu de cá
e no centro
bem no centro do epicentro
um tsunami temperamental
castigando a travessa de espaguete
ÁLBUM DE FAMÍLIA II: O HOMEM QUE COMEU MINHA MÃE
o homem que comeu minha mãe —
o primeiro —
era moreno
meio mouro
meio bugre
o cabelo preto, muito preto
e uma lábia de vendedor de enciclopédia
o homem que comeu minha mãe
chegou no lombo de uma Caloi
um cowboy nordestino
de sapato bico fino
calça pantalona
brilhantina no cabelo
e uma peixeira calibre 22
minha mãe caminhou sobre as águas
tocou banjo com anjos alcoólatras
e passou mertiolate nas chagas de Cristo
o homem que comeu minha mãe
foi embora no intervalo de um Corinthians e Bangu
disse que ia comprar cigarros
e desapareceu numa nuvem de gafanhotos
minha mãe desceu à mansão dos mortos
lambeu as sarnas de Cérbero
e pariu crisântemos nas vielas do inferno
virou uma bruxa chocha com o coração de jiló
que em noites de TPM cospe relâmpagos de sal
as vezes a velha olha através de mim —
o pensamento piscando como néon de puteiro —
: tu és a cara do teu pai!
TEMPORADA DE CAÇA
na mira dos mariachis
entre leros & boleros
como si fuera esta noche la última vez
noite da franga solta
da caça às buças
da alegria anabolizada
de êxtase
catarse
e larica
noite dos palhaços de açúcar derretidos sob o sol dos refletores
das putas
dos viados
das lésbicas pirofágicas
noite da chuva de purpurina ácida
dos clones
dos replicantes
dos abduzidos
noite das bailarinas paraplégicas empaladas no embalo dos bate-estacas
dos punheteiros do Google
das zibelinas narcisistas de piercing no clitóris
dos anões de benga farta
e dos cheiradores de cocaína e peido
na mira de Mr. Manero
entre Night Fever e Stayin Alive remix
tô topo do Titanic
feliz como Obelix
sou o rei do mundo
o sultão do swing
o senhor das baladas
tô em ponto de bala
em ponto de bola
na cola dos mano
das mina
o paraíso tem gosto de anfetamina com vodka mexicana
la cucaracha, la cucaracha
ya no puedo caminar...
na mira de Morrissey
a rainha está morta
e ninguém take me out tonight
homem ao mar! grita um bucaneiro irlandês
o motor do Fiat ronrona uma canção de ninar Húngara
elefantes de polainas tocam tuba na 23 de Maio
tem um ogro no banco de trás
um foragido de Alcatraz
e um vicking vestido num tomara-que-caia rosa-baitola
sou uma vaca de ressaca mascando Lexotan com Dramim
homem ao mar!
os afogados do Krust me acenam
enfim sábado jaz
enfim sábado
FIM
ma mira de Mefistófeles
entre bitucas de cigarro
e restos de pizza do período cretáceo
meu apê, meu doce apê!
Pernalonga na tv: o que que há, velhinho?
penso em cortar meus pulsos com uma faquinha de bolo Pullman
e pular da janela segurando sacolas de supermercado
na mira de Morfeu
entre um sushi de maracujá e um chá de tsé-tsé
o vigia na torre da muralha sul anuncia
:4 da madruga e zuzo bem!
vou abrir uma latinha de cerveja
ferver um Miojo
e purgar minha carranca no espelho
e mais uma vez não comemos ninguém
CALENDÁRIO NEUVRÓTICO SEGUNDO A PREVISÃO DO TEMPO
(para Jim Davis)
SEGUNDA: meu coração amanheceu nublado
sujeito a pancadas de chuva no decorrer do período
passem o café pelo buraco da fechadura e não falem comigo
acordei menstruado!
TERÇA: apodreço em fogo brando
sou o astronauta da lua sem luz: é maravilhoso ser ninguém
QUARTA: feijoada & suicídio
ausculto o arrastar das alpercatas sobre as tábuas do inferno
fantasmas jogam fliperama contam piadas de velório
e dançam um baião arretado: breve terão companhia
QUINTA: uma fragrância estimulante paira entre as torres de Gotham
não é peido nem óleo diesel nem as axilas do Tietê
sinto pôr 15 segundos o néctar entorpecente das paixões 220 volts
SEXTA: cerveja provolone à milanesa
Jontex e rock and roll: aberta a temporada de caça à boceta
SÁBADO: rio por qualquer coisa
DOMINGO: choro por coisa nenhuma
SEGUNDA: preciso urgentemente comprar um guarda-chuva
ZEFA QUE ME LÊ
(Para Vó Zefinha)
essa ânsia/essa azia/essa insônia/essa taquicardia/essa falta de apetite/
os traques/os tiques/as empadinhas de padaria/as crises de bronquite/a
desinteria/essa falta de ar/falta de luz/essa síndrome de avestruz: cava
r o quintal/varar a vagina da China/violentar o átomo/currar a matéria
/desintegrar/ser nada/ninguém/invisível/e não atender ao telefone/não
responder e-mails/não receber visitas/e não lavar os pratos/não limpar
a casa/não limpar o cu/e secar uma garrafa de White Horse paraguaio
/apagar/tremer de amnésia/e apodrecer frente à tv/esse luto/esse escor
buto/esse cristo puto/esse sapo sem sal/esse gosto de gasolina na boca
/a alma oca/a grana curta/o tédio farto/a porra louca/ a puta puta/a noi
te down/esse céu nublado/esse gato preto atropelado sob a cama/mam
ulengos de lama/pesadelos em câmara lenta/gritos/arrastar de passos/
ranger de correntes/Monga, a mulher gorila!/pirão de piranha com pi
menta/tequila-limão-gelo-caco de vidro salgado com morfina/chiclete
de xilocaína/pudim de sangue & gergelim/naufrágios engarrafados no
olho de um furacão/promessas de cais/de verão/dias lotados/menstrua
dos/monstruados/e esse mother fucker tatuado no verso da minha sina
isso tudo
tudo — segundo os místicos de plantão
é falta de Deus de oração
de Alá Jeová Iemanjá (Saravá!)
não, é falta de malhação! rosnam os pitbulls de academia
de vitaminas anfetaminas camisetas regatas e anabolizantes
já os hippies antiacepipes
dizem: tá vendo?
é carne vermelha é carne de porco
só Dona Zefinha
com seus olhos de raios-X
é quem acerta quando diz
: é tudo tristeza, meu filho!
tudo tristeza
(!)
BANDINI E A BOAZUDA
1ª parte (alvo & mira)
aquilo era um cu
e que cu!
cu de potranca parideira preparada
cu de cachorra de baile
cu de quenga
112 cm de rabo empinado embalado em calça jeans
um Garrincha nos quadris
um tamborim no toc-toc dos tamancos
obelisco bom de beliscar
tronco de baobá
oba! Bandini em mim ulula
a câmera do metrô viu
quando ela saiu do ultimo vagão na estação Anhangabau
UUUUU!
a Sete de Abril se abriu num rio de baba
boys crentes camelôs: aleluia gostosa!
psiu! palmas pra que te quero
qué pipoca ou qué pô pica?
2ª parte (perseguição & fuga)
entrou na Telefonica
comprou um cartão de 40 unidades
e ligou pra amiga da Vila Iório
(um cu assim
e Jesus tornaria ao mundo das carnes só pra uma
punhetinha básica)
(...)
desceu a Dom José
virou a direita na Barão
e seguiu até o Teatro Municipal
(um cu assim
e os nerds de Oklaroma City descobririam
a cura do câncer)
(...)
Cruzou o Viaduto do Chá
passou pela Praça Patriarca
e flertou com os manequins da Rua Direita
(um cu assim
e paz na terra aos homens de boa
vontade)
(...)
na Praça da Sé pegou um ônibus
encostou a cabeça na janela
e dormiu até a Cidade Patriarca
(...)
eu seguiria aquele cu até o sertão do Curdaquistão
O ASSASSINATO DO CRISTO DE PORCELANA
apontei o 45 pros testículos de Cristo
errei
Cristo não tem testículos
subi 3 palmos e mirei no coração
Cristo tem coração
Cristo só tem coração
um grande coração vermelho de porcelana paraguaia
apertei o gatilho & BANG!
Cristo explodiu em cacos
girei o revolver com o meu indicador
e soprei o cano fumegante
meu 1º assassinato — pensei
comecei bem
matei logo o filho do Chefe
OS TIOZINHOS DA MESA DO CANTO
para Gaúcho e Dimi, com carinho
4 (as vezes 5) tiozinhos sentados na mesa do canto
quase todos gordos carecas doentes falidos ou desempregados
sentam-se ali há anos
religiosamente
toda quinta-feira
na velha mesa do canto de cara pra Faustolo
sentam-se ali há anos
com suas barrigas
suas dentaduras
suas próstatas delicadas
seus pânicos & panes
seus penicos de prata
suas receitas secretas de como obter sucesso
comer mulheres & influenciar pessoas
e seus planos infalíveis de bombardear Manhattan Oriental
4 (as vezes 5) tiozinhos sentados na mesa do canto
acho que eles estão morrendo
tem noites — quando já estão pra lá da 4ª dose
— que dá até pra ouvir seus pensamentos
(:)
quem cuspirá na cova de quem?
quem contará piadas no velório de quem?
quem consolará a viuva de quem?
quem
herdará a solidão da mesa?
O AMOR É UMA COISINHA NOJENTA
os pombos arrulham na mesa ao lado
vislumbro através da vodca
eu te amo petucho! ela diz
eu te amo fofucha! ele diz
sinos tamborins da Mocidade
violinos em uníssimo
Fogos Caramuru panzers de Rommel
BONG!
TUNG!
BANG!
CRÁS!
não sei foram os olhares amanteigados
as juras de paixão eterna
o sax do Kenny G
ou a porção de tremoço
mas acho que vou
vomitar
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